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Avessado

Dois negros fujões pisam secos no asfalto.

– Fujo da vida.
– Busco a morte.

Um velho trançado, cabelo amarrado. Queimado de sol. Fortemente armado:

– Procuro dois negros fujões. Buscam a vida. Fogem da morte.

Deitados no asfalto. Embrenhados no mato. Um cartaz!
“Dois negros fujões procurados”.

No gueto afastado, com tudo avessado, um negro arrastado, morto e crucificado.

Dois negros fujões exilados.

Fujo da vida. Busco a morte. Supero o paraíso e aposto na sorte.

Seu grito final – um rito animal:

– Exalto a não vida, o exílio da morte.

por João Paulo
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Uma última vez

Tão perto de ti,
Tão longe de mim.

Que aconteceu ao Sol,
Que até ontem ainda brilhava?

Hoje só há nuvens
E uma Lua pálida.

E dúvidas
E perguntas
E receios

E nenhuma resposta.

Será a vida apenas isso,
Uma busca interminável
Para um fim inevitável?

Por que então continuar
A buscar
A sofrer
A amar
A morrer?

Tão longe de ti,
Mais longe ainda de mim.

O que é o Sol
O que é a Lua

O que são essas dúvidas, perguntas, receios
O que é essa falta de respostas, essa busca sem fim
Esse sofrimento

Se não estás aqui
Para me amar
E para eu te amar?

Para eu esquecer a vida e a morte
A tristeza e o desespero
As simples angústias
De um simples humano?

Volta logo
E me salva novamente

Uma vez mais
Uma última vez.

por Guilherme

Conjugal

A vítima, o vitimado
O cônjuge, o conjugado
A consorte
O consorte
A com sorte

por João Paulo

Tiros de rima

Parto
O tempo em dois
E parto –
Em dois –
O que se atreve
A partir –
Em dois –
O momento

Partilho
O momento em palavras
E partilho –
Em palavras –
O que não se atreveu
Com o tempo
A partir –
Em dois

por João Paulo

A Travessia

É noite,
mas não há estrelas ou Lua iluminando o céu.
Apenas nuvens vermelhas,
anunciando um iminente temporal.

Encontro-me sozinho,
caminhando lentamente numa rua deserta.
O silêncio é quase absoluto,
quebrado apenas pelo som dos meus passos.

Um vento frio e contínuo vem contra mim,
queimando meu rosto,
como se tentasse me impedir de andar.
Mas não o deixo vencer-me, não desta vez.

Caminho com mais determinação,
e a ventania começa,
combinada com as primeiras gotas da chuva.

Quase desisto diante daquela força,
que me traz lembranças, pensamentos, tristeza, pessimismo.
Contudo continuo andando.
Não me darei por vencido novamente.

Avisto, então, uma luz ao longe,
vinda de uma porta entreaberta.
Não sei por que motivo,
mas começo a correr como se minha vida dependesse de chegar àquela porta.

A tempestade começa,
a água e o vento me empurram,
mais fortes a cada passo que dou,
e novamente penso em desistir.

Tento desviar esse pensamento,
e apenas corro.

Estou chegando à porta, falta pouco…
.
..

Mas, a poucos metros de alcançá-la,
caio,
como sempre acontece nos filmes.

A água da chuva parece me achatar contra o chão.
Tento me erguer, mas mal tenho forças para respirar.

Pela última vez, penso em desistir,
mas agora não creio que conseguirei vencer esse pensamento.

Começo a ceder ao peso da água
e à força do vento.
A escuridão começa a me dominar
e nada mais faço para impedi-la.

Quando nada além da morte parecia me restar,
a porta se abre
e a luz invade todo o lugar.

A tempestade pára subitamente, deixando apenas poças de água no asfalto.

Ouço passos ao longe,
que parecem ecoar até os confins da minha alma.
Livre do peso da chuva, levanto-me
e tento avistar quem se aproxima.

Mas não consigo, a luz é muito intensa.

Ao tentar me aproximar da porta, porém,
uma voz começa a falar comigo,
fazendo-me parar.

É uma voz doce, feminina,
à qual eu não cansaria de ouvir pelo resto de minha existência.

As palavras que me disse não tenho forças para repetir,
apenas digo que elas salvaram minha vida
e me fizeram sorrir,
algo que eu já pensava não poder fazer.

Quando a voz parou,
dei um passo hesitante em sua direção,
mas ela não me impediu,
simplesmente esperou.

Atravessei o portal,
e todas as minhas preocupações se foram.
Apenas a felicidade existia, mais forte e intensa que qualquer coisa.

Virei-me para a porta e a tranquei.
Nada mais importava.

por Guilherme

3º andar

E aqui estou
num momento de solidão física
mas num elevador lotado de pensamentos.

Pensamentos independentes de minha existência.
Pensamentos vivos que vêm e vão quando querem.

Me olham
Me analisam
Me estudam.

Zombam de mim por não compreendê-los.
Zombam por serem superiores a mim.
Zombam por serem simples, mas inalcançáveis.
Zombam de minha impotência, a impotência de um simples humano.

Sou inferior, eu sei.
Sou fraco, também sei isso.
Mas eles são apenas pensamentos,
e tentar compreendê-los é o sentido da minha existência.
(mesmo sabendo que nunca conseguirei)

Eles existem para mim.
Eu existo por eles.
Eminentes, mas apenas pensamentos.

(O elevador parou.
A porta abriu.)

É aqui que desço.

por Guilherme

Excursão

Ontem comi algo que me fez mal
Acordei de noite vomitando
Saiu tudo que eu não queria mais

Veio um pedaço de sensatez e um de inquietação
Veio o tormento da perda e uma coisa vermelha
Carne, arroz, feijão, umas folhas

Quando na garganta senti nostalgia e cólera
Fiz força pra engolir

por João de Brito

Nome: João Paulo
Onde: São Luís - MA

Pseudo-escritor frustrado.


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Nome: Nilson
Onde: São Luís - MA

Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Nome: Guilherme
Onde: São Luís - MA

Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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