Archive for the 'Geral' Category

A história antes do fim

Meu estraga-surpresa sentenciou, recentemente, o que me era pra ser incerto. Agora falta aquela sensação de ter do fim alguma informação, menos o exato tempo de morrer. O médico estraga-surpresa me deu dois anos, eu aceitei com um amargor na boca e escondendo o desespero interno. Debatia-me por dentro; por fora, a falsa serenidade de quem toda a vida treinou a feição do que pouco se importa.

Começaram, então, as visitas. Parentes distantes fingindo pesar, amigos próximos sem saber direito o que falar, funcionários do hospital me cobrindo de palavras talvez já treinadas. Meu egoísmo não queria exposição ou cama rodeada de olhares analíticos; queria mesmo me desligar do mundo externo para organizar o interno. Por um tempo gastei educação e paciência com as visitas, daí fui me perdendo ou me encontrando numa briga pessoal entre o eu-dramático e o eu-dominador-da-situação. Penso, porém, que me encontrei e foi no tratar a situação com serenidade. Nego o fim da tal briga, acontece que me pedi calma.

As visitas foram diminuindo e meus planos crescendo mentalmente. Eu já não era mais a novidade da família ou do hospital (de onde logo saí). Voltei para casa no velho carro do meu avô, uma Kombi branca, o carro que eu sempre quis ter e nunca criei coragem de comprar. Em mãos eu tinha um cronograma, exames que me obrigavam a retornar ao hospital quatro vezes por semana, freqüência exaustiva e procura cega por uma solução para o meu caso; situações com as quais eu não sabia lidar e nem garantia agüentar por muito tempo. Na casa dos meus pais tudo do mesmo jeito de 11 meses atrás, quando deixei o lugar numa troca compulsória pela cama reclinável do hospital. Meu quarto era o mesmo, minhas fotos de infância em quadros na parede, os livros, filmes e revistas. Certeza eram colcha e lençol recém-trocados e com cheiro de casa, coisa de que eu sentia muita falta. A cama reclinável traz um tom de imparcialidade, a minha cama é parcial, é minha. Eu me sentia em casa porque estava em casa.

Durante alguns dias pensei meses sobre minha situação; agora há meses em casa, penso dias em mim. Confesso ter pensado bastante sobre meu avô. Tive o desprazer de vê-lo morrer aos 73 anos. Acompanhei o enterro, ao lado da minha avó, deste velho retirante da seca do Ceará. Depressão: dele, não minha. Prometi-me a sanidade mental e a vontade de continuar vivo esquecendo prazos.

Desde sempre alternei choques de realidade com surtos de revolucionário de sofá e entusiasta de idéias bobas. Imaginar-se realmente como o personagem de Tom Hanks em “Quero ser grande” ou Ferris Bueller em “Curtindo a vida adoidado” era garantia de tempo gasto (ou aproveitado) em imaginação saudável, fantasia. Personagens símbolos de liberdade sempre me atraíram, eles eram heróis enquanto a mente da criança voava. Hoje divido minha idéia de liberdade entre os heróis antigos e a dupla de “Antes de partir” Jack Nicholson e Morgan Freeman. Digo que são neste filme o clichê certo para emocionar, doentes terminais que decidem conhecer o quanto puderem do mundo. Quero e não quero ser grande e curtir a vida adoidado antes de partir, mesmo tendo que admitir estar numa fase de preferência pelo choque de realidade.

Entendi que os médicos não têm mais muito em que me ajudar quando diminuíram minhas idas ao hospital. Admito ter gostado. O choque de realidade já tinha perdido força e eu podia aproveitar melhor o tempo livre e delimitado que me deram. Tenho corrido pela manhã com meus pais, assim eles alongam a vitalidade e eu curto a minha. O clichê de conhecer o mundo não me fisgou, preferi conhecer melhor o pequeno mundo que me rodeia.

A vida anda em fotogramas que revejo mentalmente. Enquanto enxergo o que não via e escrevo, fico pequeno para as minhas roupas. Antes que eu perca as forças vou andar de Kombi. Se me faltar o olfato, já gravei o cheiro da minha casa e dos meus pais. Decidi que não quero parecer em nada com o cinema. Sem exaltações, atos memoráveis ou loucuras adolescentes. Só quero me sentir em casa por estar em casa de agora até…

por João de Brito
Anúncios

Ensaio sobre as mulheres

Meu amigo Marcos me pediu há um tempo pra escrever algo sucinto sobre “As mulheres realmente mandam?”. Bem, no link você pode conferir a íntegra. Aqui há só minha parte do texto.

Segundo experiências pessoais, mandam sem ressalvas. De modo geral, seguindo o senso masculino comum, mandam sem ressalvas. Algumas com autoridade bem declarada, outras de forma mais velada. Estas últimas “mandam mais” pelo fator charme que vence, inevitavelmente, o fator brutalidade das autoritárias. Não consigo decidir se sou frouxo ou macho o bastante para admitir a supremacia das mulheres, mas sim, são supremas em namoros, casamentos, como mães, amigas, enfim, o que puder ser imaginado em termos de relações interpessoais. Mandam até quando são dominadas, subjugadas.

As mulheres nos modelam, nos transformam aos poucos no que desejam, mesmo que alguns homens resistam. Mulheres de malandro, masoquistas, corneadas, abandonadas, mimadas, bem amadas, todas são dominadoras por excelência, mas, não necessariamente, por profissão, afinal estão nas mais diferentes situações por gostarem ou por dificuldade de se impor. Aí está mais um paradoxo da existência feminina: ao mesmo tempo em que são dominadoras podem ser incapazes de se impor.

É possível, por horas, discutir sobre as artimanhas femininas e sempre se deparar com incongruências, paradoxos, certezas e cansar de repetir “mas” e “mesmo que”, se mostrar confuso ao defender argumentos há poucos segundos impecáveis, definir, voltar atrás, acreditar erradamente possuir alguma resposta certeira. Por enquanto, arrisco dizer que a dominação feminina está na inconstância, no mistério, no charme ou agressividade, está nos clichês que cansamos de repetir e lutamos para entender. E assim será enquanto as mulheres habitarem um mundo diferente do masculino, o que vai ser, pode acreditar, pra sempre.”

por João de Brito

É melhor ser direto

Narciso era um “auto-fanático”, apaixonado por ele mesmo. Narciso é o melhor exemplo de narcisista (lógico!). Em bom (ou mau) linguajar, era a fim de si mesmo. Decerto um vaidoso, arrumava-se para um culto próprio, para se ver refletido nas águas, para contemplar a si próprio num ritual de “auto-tesão”.

Não tenho nomes, mas há loucos por pés. Certamente não sou um deles; pés fedem, por isso, ou por motivos mais nobres, a evolução manteve-os longe do nariz. Adoradores de pés são insanos, gostam de chupar dedos alheios, dedões gordos, dedões magros, com unhas quebradas, encravadas, pés engordurados, amarelados pela falta de higiene; acometidos por pé-de-atleta, frieira. Lambem solas, até saltos. Um estranho gosto (de chão).

Há os espremedores de espinha, irmãos dos engolidores de catarro e meleca. Não podem ver uma protuberância que já empunham os dedos em posição de ataque. Nem sempre as investidas vêm com aviso prévio para os atacados. É um prazer, um êxtase, ver o purulento líquido escorrendo ou voando; dá até um gosto inesperado de “quero mais”.

“Cada louco com sua mania” e “gosto é que nem cu” são muito clichês. No caso de vontade louca é melhor ser direto: “Quero lamber teu ouvido!”

por João de Brito

Pois é, crônica

Agora quem fala não é nenhuma mulher louca, menina solitária; nenhum psicopata homicida ou apaixonado. Quem fala é o que pensa por eles e neles. Admite então uma crônica, que é, em meu ver, um balanço de acontecidos. Faço, pois, o meu balanço.

Explicando melhor: quem escreve, mesmo que por métodos diferentes, utiliza-se de meios comuns de montagem do texto. Imagino certos detalhes dos personagens, uma ou outra estruturação física, além do fim, que é onde pretendo chegar. O papel do escritor é como de um cineasta: imagina-se, põe-se em prática, então vem a edição. Este é o ponto, a edição. A maioria dos pensamentos é descartada durante o processo, esquecida depois pelo escritor e nem sequer mencionados ao leitor. A edição esconde segredos, idéias que teriam ficado excelentes ou desastrosas, vergonha, medo de reações. Há muito mais num filme ou texto do que se possa pensar. Quem sabe eu conte algum “lado B” de textos meus.

Escrever confunde a mente, embaralha os pensamentos. A idéia de balanço é exatamente organizar a cabeça, colocar cada coisa em sua gaveta e jogar fora o que já não tem mais utilidade. Pretendia e pretendo eu, com uma crônica, dar minhas razões, motivos, fazer comentários. Afinal, textos em geral libertam a imaginação, mas limitam o escrever; já este formato tem um agradável tom de liberdade, que não usarei em demasia para evitar desgaste e/ou vício numa relativa liberdade.

Estou agora como uma loja em renovação. A diferença é que os meus produtos literários serão mostrados. As lojas em balanço fecham-se. Deixando de enrolação, a explicação: meus planos antes e depois de um texto geralmente são distintos; há modificações imprescindíveis, recalques, erros (propositais ou não), esquecimentos e há o acaso.

Foi por acaso que o gosto por pés de Júlia combinou com as passadas do rapaz sem nome. E me refiro a total acaso. Não era intenção minha o final escrito. Comecei o texto “Júlia” tentando escrever algo que entretesse e literalmente “enchesse lingüiça”; para isso vali-me de um sonho no qual eu andava numa rua do centro histórico (sonho, aliás, que ajudou bastante nas descrições presentes no texto). Fui então permeando descrições e dando prosseguimento ao acontecido, até que chegou o momento de apresentar a fascinante e enigmática Júlia. Pensei precisar transformá-la em algo diferente das meninas bonitas comuns, algo estranho, mas ao mesmo tempo atrativo aos mais curiosos; daí pensei no gosto por pés de num poder de crítica a pés feios. Acontece que, de primeira, não percebi uma possível relação “passo-pé” (nem de segunda). Continuei a escrever, passei pelo monólogo e chegando ao clímax deu-se o estalo. Meu final estranho e romântico estava formado. Os pés foram o “mote” de uma possível união, não explicitada no texto. Pronto, contado um dos segredos da confecção de “Júlia”. Há outros.

Presto contas também aos alopatas. Produtos de um acaso menor, mas acaso. Tanto que segredos de “Alopatia” não encheriam satisfatoriamente um parágrafo. Alguns: há certas palavras bem incomuns no texto, e pelo menos a maioria aprendi a usar no momento de escrever o tal texto. Isso porque tenho sempre um dicionário à mesa de estudos. Dele utilizei-me para conseguir o título: ao fim do texto, depois de inserir minha carga moderada de suspense e deixar perguntas sem respostas, ainda faltava o título; pois aconteceu que num pensamento ingênuo tomei o dicionário à mão e abri numa página qualquer. Lá estava “alopatia”, a primeira palavra que li. Encaixou-se.

E como é hora de metalinguagem: venho tentando escrever de modo a possibilitar uma “moral da história”, ou algo do tipo. Mas admito que é por medo de rejeição. O que pensa quem lê um texto a terminar sem “mensagem”? Tenho diálogos e prosas “sem mensagem” explícita ou comum. Não que sejam menos interessantes, mas ainda não vejo chance para expor um deles. Mas mostrarei. O que é intimista não é, exatamente, apreciado ou entendido. Afinal um réquiem toca as pessoas de maneiras diferentes. O acre não amarga na boca de todos.

Mas pensando bem e contradizendo (ou não) o dito no parágrafo de cima, vai uma citação retirada de “Como me tornei estúpido” de Martin Page:

“As pessoas ligeiras, superficiais, os espíritos presunçosos e entusiastas querem uma conclusão em todas as coisas;
Eles buscam a finalidade da vida e a dimensão do infinito.
Eles tomam na mão, na sua pobre mãozinha, um punhado de areia e dizem ao oceano:
‘Eu vou contar os grãos das tuas margens’.
Mas como os grãos lhes correm por e
ntre os dedos e como o cálculo é longo, eles batem os pés no chão e choram, eles choram.
Você sabe o que há para fazer na margem do rio?
Ajoelhar-se ou passear. Passeie!”

E agora uma citação final, de uma conversa ao telefone com nosso ilustre escritor e meu amiguinho querido Guilherme. Falávamos sobre não gostar de postar crônicas por serem invariavelmente pessoais:

“E quem se importa com o que a gente pensa?”

por João de Brito

Thomas

Thomas
por João Paulo

Pílulas de a-sabedoria

I

As nuvens são feitas de algodão-doce. Talvez os pensamentos sejam feitos de pipoca: provêm de um estalo, aumentam de tamanho, são então temperados e quando já prontos, “assimilados”.

É hora de ir. Eu e meu semi-hermetismo. Quem sabe um dia retorne. Deve ser mais fácil quando se é de pipoca.

 

II

Certo, uma curiosidade então: tenho azar com borrachas, nunca encontro uma que realmente apague. Algumas mancham. Outras mancham e colorem, como as verdes “Mercur” que teimam em deixar minhas páginas com um tom verde-borrado. Outro dia afanei uma branca de capinha laranja que até agora está uma maravilha. Mas as borrachas sempre me decepcionam (e desaparecem), assim como as pessoas.

 

III

— O que faz você aí sentado sozinho olhando pra cima?
— Convivas, nossa existência é miúda. Olhem para o céu numa dessas noites estreladas.

Nota: Entenda (ou não) cada pílula separadamente.

por João de Brito

Nome: João Paulo
Onde: São Luís - MA

Pseudo-escritor frustrado.


Orkut
Last.fm
E-mail
---

Nome: Nilson
Onde: São Luís - MA

Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


Orkut
E-mail
---

Nome: João de Brito
Onde: São Luís - MA

Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


Orkut
E-mail
---

Nome: Guilherme
Onde: São Luís - MA

Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


Blog
E-mail

a