Archive for the 'Contos' Category



Sou uma lenda

If loneliness meant world acclaim, everyone would know my name. I’d be a legend in my time” – às 7 da manhã, este era o som do rádio: a voz grave e melancólica de Johnny Cash. O lugar era um subúrbio desses inchados, com todo tipo de gente.

À cama, ainda envolta em lençóis de algodão não-lavados há duas sofridas semanas, ela ouvia a canção já familiar, dada à sua temporária tristeza. Tinha os olhos já fundos de noites mal-dormidas, mesmo que sempre em casa estivesse. Ultimamente estava receosa de sair; não punha o rosto à porta nem para uma rápida espiada. Era um problema.

Desde criança cultivava o poder de maximizar, levar ao extremo, ao pé da letra, suas experiências de vida. Outrora, chamaram seu nome logo à frente da casa, mas bastou uma aproximação mais brusca rumo à porta para se ouvir passos como de corrida e perceber na soleira um pedaço de folha. O tal pedaço estava bastante amassado, até um pouco úmido, sinal de mãos nervosas, suadas, que talvez teimassem em entregar o recado. Por medo, quem sabe. Apreensão e medo. “É, apreensão ou medo” – pensou.

Faltava algo: ler. O poder da garota de maximizar os acontecidos era evidente, afinal era apenas um folha. “Para que tantas divagações? Apenas leia!” era algo que certamente não viria à mente temporariamente perturbada. Remoeu-se em hipóteses, pensou em galanteios anônimos, em deboche escrito, perseguição. “Mas só com um mísero bilhete? É, com um bilhete”, respondeu a si mesma em pensamento. Cogitou apenas jogar fora o tal papel, mas a curiosidade a consumiria. Continuava a corroer a mente com teorias improváveis: “Mas e se for o início de uma conspiração contra mim? Eu que mal não faço nem desejo”, martirizava-se.

Houve um barulho, som de campainha. O que a distraiu da situação por curtos segundos, tão efêmeros quanto o pensar deslocado da garota. Custava a abrir a porta, ação comum naqueles dias turvos, como se a neblina estivesse de guarda em seu quarto. Nesse custar sem motivo aparente, quem quiser que aguardasse resposta desistiu e seguiu seu caminho. O barulho dos passos do desistente deram margem à interpretações da “avariada”: “Deve de ser o mesmo sujeito do bilhete”. Como ela sabia se tratar de um “sujeito” e não de uma “sujeita”? A voz é a resposta. A voz ouvida da primeira batida. Pensou sobre: “Caso não seja, digamos, um bilhete amigável, o entregador devia realmente querer que eu ouvisse sua voz; do contrário, nada falaria, apenas soltaria o papel porta adentro”.

Deu-se um estalo mental. O bilhete estava em mãos, mãos nervosas, sendo mais amassado ainda. Tomavam quase um tom amarelado: o bilhete e a mulher. Sentia vontade de lê-lo, mas agora também havia a preocupação de não rasgá-lo devido à umidade das mãos.

Tomada de um súbito lampejo de lucidez, não recobrou totalmente sua consciência de realidade, mas o bastante para tomar a atitude mais difícil do dia, quase um mês, de tão demorado: abrir a mão e ler.

O bilhete era bem pequeno, com listras azuis. Apenas uma face estava escrita, em letra cursiva de tamanho e forma milimetricamente padronizados. Ela então leu e imaginou a imagem do remetente:

“Eu sei o seu mais profundo segredo”, dizia a face escrita.

A resposta da garota foi imediata. Percebeu uma caneta próxima e num escrever corrido na face oposta do papel foi como se falasse:

“O maior segredo é não haver segredo algum”.

Largou o pedaço onde encontrou. Podia voltar à sua vida pequena.

por João de Brito
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Alopatia*

— Ora, ora minha querida, você está fadada ao escrutínio do destino.
— Lá vêm você com esse instinto bórico psicopata.
— Desta vez é sério. O escrutínio do destino sou eu. Veja o que há em minha mão.
— Ah, não acredito que decide as coisas desse modo precipitado.
— Mas bem que você merece, por me importunar a vida e enfezar a tranqüilidade.
— E eu te importuno? É realmente insano: não lembra o que faz e ainda atribui ações a mim.
— Não invento. Você tem sido traiçoeira, por isso preciso completar minha vontade de extirpá-la.
— Então é por isso que o pretendente a homicida carrega tal artefato nas mãos. Assim, será um processo lento de agonia.
— Agonia é o que eu quero, mas para você, que é a razão do meu mal-viver.
— O seu mal-viver é culpa sua. Já se foi o tempo em que eu ficava apenas ouvindo seus reclames sem nexo.
— E ainda quer se sair de corajosa? O pudor não lhe permite reação.
— Todos escondemos, até de nós mesmos, certos comportamentos e reações. Você brinca com pudor e faca. Aquele faz sala, o outro perfura, fere.
— Não insinue falsidades. Aqui você está em desvantagem. Eu não sou o insano, o psicopata?
— Você seria capaz, eu sei. Já deu demonstrações antes, mas nunca imaginei tamanha baixeza.
— Tudo que faço é em resposta às tuas imoralidades.
— Então eu sou a imoral? Você não me aponta sérios deslizes, já os seus, os tenho numa lista.
— Está vendo o jogo? Sempre que a acuso, rebate com o mesmo argumento contra mim. Não pense que funcionará. Estou decidido a manter meus planos.
— Não duvido que manterá. Ainda mais em seus devaneios de pobre louco.
— Meus devaneios? Você insiste em pintar-me como louco, coisa que não sou. Você sim é desregulada, dissimulada.
— Parece que você copiou bem minha tática dos contra-argumentos. Mas não pense que me desmoraliza. Toda judiação para louco é pouco, e de insanidade nós entendemos.
— Não me venha macular como desvairado. Você sabe o que lhe espera. Você está fadada ao escrutínio do destino.
— Você nem imagina o que carrego à cintura. Você está fadado ao escrutínio do escrutínio.

*Alopatia: segundo o tio do Chico Buarque, quer dizer “sistema terapêutico que trata as doenças por meios contrários a elas”.

por João de Brito

Pirulito

Era para ser um cumprimento normal, um oi qualquer, seguido de um breve beijo no rosto.

— Ele me beijou! Na boca! – a garota sentindo-se ameaçada pôs-se a reclamar.

Foram milésimos de segundos, porém suficientes para sentir uma forte emoção. Um olhar penetrante, seguido de timidez; respiração acelerada, seguida de espanto e surpresa. Ambos acharam estranha a situação.

— Ele me beijou!

O garoto espantado, mas mesmo assim feliz, afastou-se e logo confidenciou ao amigo o acontecido. Esse por sua vez – pode-se notar – sentiu uma pontada de ciúmes, que tentou esconder, porém sem sucesso.

— Ele me beijou! – ouviu-se ao fundo a voz da garota.

Ela também contara a uma amiga o acontecimento, que apresentou as mesmas reações do garoto beijado, com diferença no “sentir-se feliz”. Foi então descobrir o motivo, indagando ao rapaz a respeito de sua ação.

— Não tive culpa. Ela foi quem virou o rosto, dando no que deu… não pude fazer nada. E talvez nem quisesse. Foi apenas um “selinho”, nada de mais.

— Ele me beijou!

Logo a notícia se espalhara, chegando a um amável garoto sonhador e futuro dono do mundo. Indagou-se como seria bom um beijo da branca de neve, mas percebeu não estar em um conto de fadas nem ter caminhão espaçoso o suficiente, descendo então de seu nirvana mental e estendendo essa frase com gerúndios mal colocados sem razão aparente apenas para tornar a leitura cansativa. Questionou-se também sobre o fato de não saber como terminar textos, mas isso não vinha ao caso.

Algum tempo, já passada a situação, o rapazote beijado sentiu sua boca doer. Pensou no que poderia ser e chegou à conclusão de que o batom usado pela garota estava vencido. “Só pode ser isso!”, pensou. Imaginou até a possibilidade de perder sua boca com uma possível infecção e posterior gangrena. Logo deixou tal pensamento de lado. Talvez fosse a dor de um beijo roubado, se é que isso faz sentido.

Mesmo no dia seguinte, continuava a pensar no ocorrido. Sem saber mais o que fazer, perguntou ao seu amigo e futuro dono do mundo como terminar essa já esgotada de fatos história. Não obteve respostas, decidindo-se por encerrá-la assim mesmo.

por João Paulo

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Pseudo-escritor frustrado.


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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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