Ensaio sobre as mulheres

Meu amigo Marcos me pediu há um tempo pra escrever algo sucinto sobre “As mulheres realmente mandam?”. Bem, no link você pode conferir a íntegra. Aqui há só minha parte do texto.

Segundo experiências pessoais, mandam sem ressalvas. De modo geral, seguindo o senso masculino comum, mandam sem ressalvas. Algumas com autoridade bem declarada, outras de forma mais velada. Estas últimas “mandam mais” pelo fator charme que vence, inevitavelmente, o fator brutalidade das autoritárias. Não consigo decidir se sou frouxo ou macho o bastante para admitir a supremacia das mulheres, mas sim, são supremas em namoros, casamentos, como mães, amigas, enfim, o que puder ser imaginado em termos de relações interpessoais. Mandam até quando são dominadas, subjugadas.

As mulheres nos modelam, nos transformam aos poucos no que desejam, mesmo que alguns homens resistam. Mulheres de malandro, masoquistas, corneadas, abandonadas, mimadas, bem amadas, todas são dominadoras por excelência, mas, não necessariamente, por profissão, afinal estão nas mais diferentes situações por gostarem ou por dificuldade de se impor. Aí está mais um paradoxo da existência feminina: ao mesmo tempo em que são dominadoras podem ser incapazes de se impor.

É possível, por horas, discutir sobre as artimanhas femininas e sempre se deparar com incongruências, paradoxos, certezas e cansar de repetir “mas” e “mesmo que”, se mostrar confuso ao defender argumentos há poucos segundos impecáveis, definir, voltar atrás, acreditar erradamente possuir alguma resposta certeira. Por enquanto, arrisco dizer que a dominação feminina está na inconstância, no mistério, no charme ou agressividade, está nos clichês que cansamos de repetir e lutamos para entender. E assim será enquanto as mulheres habitarem um mundo diferente do masculino, o que vai ser, pode acreditar, pra sempre.”

por João de Brito

Hoje eu quero fazer tudo por você

Eu e minha Júlia estávamos no sábado prontos para sair e procurar nosso novo apartamento. Dessa vez nada de aluguel, íamos ter o nosso próprio. Na verdade, só ela estava pronta para sair (incrivelmente).

– Calma, meu amor, pensei que a bermuda estivesse limpa, mas cheirei a virilha e não tá muito agradável. Me arrumo num instante.
– Põe uma calça. Você já é homenzinho – falou em tom de brincadeira.

Peguei, então, a primeira calça que vi e cheirei a virilha: tudo tranquilo. Até ali tínhamos apenas um carro que se desdobrava numa tentativa quase impossível de atender a ambas necessidades diárias. Sorte que trabalhávamos em turnos diferentes, eu de manhã, ela de tarde.

Eu preferia sempre dirigir quando estávamos em dois, afinal, entre nós era instituído em cartório que quem dirigia, escolhia a música. Perceba que tenho razão, pois não é possível aguentar todo dia o mesmo cd da Simone. Já basta no natal. Escolhi para aquele dia o acústico mtv do Bob Dylan. Aliás, que música essa All along the watchtower. Dave Matthews Band pode gravar quantas vezes quiser, não fará melhor que Dylan, embora não faça feio. Hendrix quase empata.

Não demorou e chegamos ao falado Bosque. Adicionamos casas à busca. Também não demorou para sairmos. Júlia alegou: “Senti algo estranho naquele lugar, sei lá, não era nossa casa”. Continuamos e a essa altura já tocava The times they are a-changin. Gran Village foi descartado com menos rapidez e mais argumentos: “Calçada muito estreita, casa apertada, mal-localizada. E as crianças, onde vão brincar?”. Essa talvez tenha sido a única explicação concreta dada por Júlia nos nossos dois dias de procura. Em geral, ela se justificava com a famigerada intuição feminina. Justificativa que eu prontamente aceitava, não que eu achasse plausível, mas sim porque é pouco prudente discutir com uma mulher fazendo compras. Não tinha motivos para acabar com minha tranquilidade. Ela sabe que só exijo minha estante pros filmes e a mesa para o notebook.

O primeiro dia de busca passou e deixou em mim, mais do que nela, um cansaço que 8 horas de sono não dariam conta. Já deitado pensei em contar a Júlia sobre um velho endereço que eu havia guardado há uns 10 anos, antes mesmo de nos conhecermos. Aquela casa tinha entrado em minha mente como nenhuma outra: dois andares, janelas foscas de vidro, portas de madeira com fibras bem aparentes, persianas charmosas. Incrível como num estalo as memórias se tornam nítidas e lá estava eu de novo acordando dentro do carro. Daquela vez o bêbado não conseguiu chegar em casa e dormiu na rua. “Sei que tenho o tal endereço guardado em alguma gaveta. Tomara que o papel não tenha se desfeito”. Encontrei, mas ao voltar para cama Júlia já havia caído de sono. Uma pena, pois ia contar a ela dos detalhes no portão que eu havia lembrado no caminho da sala para o quarto com uma breve parada na cozinha.

No segundo dia de buscas me dei ao direito de incluir um destino, coisa que eu ainda não havia feito. Uma casa que não saia da minha cabeça lá pelos lados do cohafuma, perto de um apartamento que já íamos mesmo ver. Peregrinamos, então, por mais uma série de casas e apartamentos. Todos rejeitados por motivos não tão diversos. E Júlia com sua mania de ler rápido não percebeu uma caligrafia diferente na folha de endereços já ladeada de riscos indicando casas descartadas. Já que Júlia não havia percebido um destino a mais, decidi não contar nada. Não queria influenciar.

Chegamos ao apartamento próximo da casa que tanto falo. Júlia aprovou a entrada, o elevador, as escadas, prestou atenção até nas luzes no teto dos corredores e comentou com ar de criança empolgada: “Acendem automaticamente”. Gostou do tamanho dos quartos, da amplitude da varanda, reclamou dos armários na parede e prometeu trocar por uns mais modernos. Ela me olhou como que pedindo aprovação. Não entendi se era sobre comprar o apartamento ou trocar os armários (ou os dois). Acabei por fazer cara de nada. Eu tinha gostado do apartamento, mas o talão de cheques não sentia vontade de pular do bolso. Mentira, eu ainda pensava na tal casa. Ficamos, então, de continuar a procurar e dar uma resposta a corretora depois.

Nosso destino seguinte era bem próximo, fomos andando e conversando.

– Seria bom se decidíssemos logo hoje, amanhã já é segunda, temos que trabalhar – eu disse.
– Gostei do que vimos agora. Só não entendi a sua feição quando lhe olhei.
– Não sei bem…quer dizer, gostei do lugar, é espaçoso, tem… – havíamos chegado.
– Uma amiga mora logo ali – disse Júlia apontando o outro lado da rua.

Estava do mesmo modo que vi há tantos anos. E graças a coincidências que acontecem bastante em textos e pouco na vida, a casa mostrava numa placa já gasta pendurada numa das janelas do segundo andar a inscrição “Aluga-se”. Estranhei Júlia não ter se perguntado o porquê de “ela ter colocado” uma casa para alugar na lista. Ficamos eu e ela em pé na calçada larga, meus olhos mirando a placa, em seguida as janelas. Júlia foi com o olhar rapidamente da placa, para as janelas e a porta da frente, até que chegou em mim e parou. Eu não sorria, não exibia nenhuma expressão fácil de notar, apenas estava lá contemplando. Descobri no instante seguinte que não precisaria sorrir ou argumentar para ser entendido. Quando nossa corretora finalmente nos alcançou… bom, digamos que minha Júlia me entende.

– É essa nossa casa – disse ela com um sorrisinho.

Passava pouco do meio-dia, nos apressamos para resolver tudo naquele dia. Decidimos dormir logo na nossa nova casa. Era bem maior que o antigo apartamento, precisaríamos comprar mais móveis. Quanto ao aluguel, resolveria isso depois. De improviso, fizemos uma limpeza rápida, levamos colchão, roupas de cama e toalhas. Com sorte teria água nos chuveiros.

A noite, com a cama arrumada, fui tomar banho enquanto Júlia lia algo já deitada à luz do abajur que vi a um canto. Abri o chuveiro e me perdi com a visão através da janelinha. Duas senhoras conversando, um skatista com aqueles tênis estranhos e tive quase certeza de ver meio coberto pelas samambaias da entrada um homem com roupas bem bregas estilo anos 80. Ao fim do banho me despedi daquela rua amarelada pela luz dos postes e fui me deitar. Demorei-me um pouco à porta, precisava acostumar os sentidos ao novo ambiente.

– O que te fez querer a casa sem nem ter entrado primeiro? – perguntei a Júlia já com a certeza de ouvir “intuição feminina” como resposta.
– Sabia que adoro te ver dormir? Parece criança de boca aberta – disse ela com um sorriso de canto de boca e deu “boa noite”.

Não entendi bem, mas fui dormir de boca aberta, como sempre.

por João de Brito

Fashionismo anos 80

“Eu sou artista, escritor, modelo e ator e tudo mais que não presta! Preciso viver pra contar, andarilho de merda!”. Grande problema acordar com uma porrada na cara, um direto do sol das 6 da manhã. Outro grande problema é acordar dentro do carro e perceber que dormiu sentado. Quanto às aspas, realmente um andarilho com roupa atlética anos 80 me arrancou a base de socos no vidro do meu sono de recomposição, mas não teve nada desse discurso gentil, só o mandei a merda mesmo. Não sou artista, nem modelo, nem ator, sou só escritor e tudo mais que não presta. Aliás, não sou advogado (ponto para mim).

Tenho os olhos colados, dupla luta contra sol e lágrimas secas. O olho direito é o primeiro a ganhar força e avistar as costas distantes vestidas com o colorido brega daquela década e também a casa tomada por janelas foscas e vítreas e o portãozinho de madeira e pinheiros e samambaias em vasos pendurados. Calçada bem cuidada, a real walkside. A velha mania de pensar em inglês e de, pior,  falar sozinho e de achar graça em se arrastar nos “e” e nas intervenções do próprio pensamento. “Não é bom para a fluidez, artista, escritor, modelo, ator”. E mania de self-hate, self-criticism. Digamos que eu tenho várias linhas de pensamento acontecendo simultaneamente. Uma delas vem me perguntando o que faço aqui estacionado e usando uma das duas únicas camisas sociais chiques de marca que tenho, a calça jeans preta  borrada para todas as ocasiões, meia branca de colégio de freira e sapato decente ganho no natal  de não me lembro quando. O desleixo fingido é o neo-fashionismo, baby. “Festa e open bar, combinação exata para quem quer dormir na rua (ou no carro)”. A festa é hipótese, open bar é certeza.

Os olhos descolados mostram melhor a bela casa. Descobri faz alguns segundos que sou fã de janelas foscas de vidro e portas de madeira com as fibras aparentes. E tem um sobrado do outro lado da rua, talvez uns 3 quartos para alugar e olhos espiando o idiota que dormiu no carro e sentado. As pernas agora doem. Ou já doiam antes enquanto a minha maior preocupação era tirar o gosto de baba seca da boca. Aliás, pior que o sol na cara é a saliva pouco fluida do recém-desperto. Sentir os dois ao mesmo tempo é um eficaz método de comparação. Tenho um certo problema com olhares curiosos, o que me impede de deixar o carro e verificar da varanda a bela porta de madeira e vidro até com algo de ferro em espiral preto. O olhar desinteressado de quem passa logo ao lado do carro na rua não é invasivo nem cobra explicações. O curioso ali da janela amarela deve até se questionar se é só preguiça meu uso de camisas gastas. Não vou contar a ele do meu neo-fashionismo, deixo-o com a boa ilusão de preguiça, que vale para nós dois.

Sorte é que pensar sozinho é bem mais rápido que conversar. Não devo ter três minutos de acordado. Endereço anotado, tenho que voltar depois, afinal preciso contar pra viver (ou o contrário). Como só dirijo descalço, jogo os sapatos pro lado e sigo em frente com a menos ágil das agilidades. Gostei desse Black Sabbath tocando nas caixas de som dos postes. Lá na frente vai aquele cara de bermuda verde marca-texto e regata vermelha. Deep Purple tocando? É sonho. “Some stupid with a flare gun burned the place to the ground”. Aliás, gosto muito do filme do Cazuza quando ele canta essa música usando uma camisa do Mickey. Fashionismo anos 80.

por João de Brito

Excursão

Ontem comi algo que me fez mal
Acordei de noite vomitando
Saiu tudo que eu não queria mais

Veio um pedaço de sensatez e um de inquietação
Veio o tormento da perda e uma coisa vermelha
Carne, arroz, feijão, umas folhas

Quando na garganta senti nostalgia e cólera
Fiz força pra engolir

por João de Brito

Enche-me os olhos

Tive uma infância bem completa, feliz, permeada pela inocência que deve haver quando se é pequeno e mais ingênuo. Não fui sapeca, arteiro, traquina (fui chorão, mas esse é outro assunto); também não tive brincadeiras de interior, fui guri urbano. Em compensação fui fantasioso, imaginativo, um guri de 1,10m pensando que pensava. O bairro era uma província dentro de outra; a casa, numa avenida (lembro até hoje do endereço: avenida 1, quadra 17, casa 129, Jardim América). Dei azar de não ter amigos ao redor de casa, cercada por comércios, mas satisfiz-me na escolinha do bairro, onde pude exercer meu direito de ser criança com toda a energia disponível.

Os prantos do primeiro dia de aula deram lugar à pequenas amizades, amiguinhos de brincar no recreio, de se divertir com massa de modelar, de dividir um pouquinho do lanche com o outro. Além de já comentar sobre as menininhas mais bonitas no esplendor dos 6 anos de idade (a mais bonita era a Daniara, loirinha; a minha namoradinha era a Aline, “amor infantil” correspondido). Comentários sem maldade, apenas uma leve iniciação no bom gosto.

A escola à época era pequena, a entrada suportava mal uma bicicleta. Instalações modestas, um computador para toda a escola, mas tudo superado por um perceptível compromisso em não deixar para trás os futuros jovens. Realmente foi aquela escolinha a responsável pela minha “infância social”.

Foi tão bom ser criança. Sem preocupações, sem grandes frustrações, sem percepção da horrenda realidade. Foi mesmo muito bom: brincar no parquinho da escola era o ponto alto do dia. No chão era areia e umas pedrinhas e olhando para cima, os baixos brinquedos que pareciam altos. Nesse lugar de escorregadores, escadinhas, crianças tropeçando e levantando, balanços, eu perdia minha pouca noção do mundo. Eu ainda não sabia, mas esse “desligar-se” do mundo se tornaria meu maior e mais querido (porém longínquo) prazer. Essas brincadeiras tão bobas em meio a brinquedos simples e enferrujados são minhas “lembranças de segurança”. Reminiscências da boa época de ingenuidade.

Mas agora o que eu sou? Não faço idéia. Mas sei que a boa época passou quando cresci. Fui arremessado nesse mundo maldito. Mudei, mudei muito. Não tenho mais a ternura de quando preenchia com capricho minhas caligrafias; hoje escrevo com raiva, com angústia. A culpa não sei se é minha que resolvi pensar. Talvez pensar tenha sido a decisão menos sensata da minha vida. Depois de crescidinho meu sonho é entrar num transe-êxtase dos alienados. Queria saber como se sentem os idiotas que Lula arrebanha/engana. Gostaria também de ser um dos retardados que vão anualmente aos Marafolias e similares. Mas fui teimoso, quis ir contra a maré, quis adquirir cultura, ouvir boa música. Deu no que deu. Vou vivendo as vezes angustiado, puto da vida, perplexo enquanto os idiotizados vestidos com abadás exibem sorrisos de satisfação e corpos esculpidos nos “centros oficiais de idiotização”, também chamados academias.

“Que besteira se lamentar”. Discordo! Não é lamento. É um pedido, um encarecido pedido aos que pensam muito mais que eu. Desejo duas coisas, mas se for difícil, qualquer uma das duas já serve e muito. Quer saber? Falo depois o que quero, porque fica legal para um desfecho.

Vejo-me neurótico daqui a algum tempo, preciso me acalmar. Mas acalmar-se é aceitar imposição e eu não aceito (facilmente). Talvez a loucura, neurose ou a senilidade sejam uma honraria dedicada aos que já pensaram demais. Não quero durar muito tempo, nem pensar em virar “Dercy”. Não quero dar excessivo trabalho para mim nem para os outros, mas caso eu viva mais tempo que a média, quero virar um louco, gagá e quem sabe um filósofo. A insanidade é mais normal que a falsa normalidade apregoada.

Como era bom ser criança, não ter dúvidas existenciais nem preocupações. Por que ninguém avisou antes que ia ser assim? Deve ser um revanchismo acumulado. Por fim, meu dois desejos: você aí que pensa mais que eu, consiga, por favor, um jeito de eu viver sem cérebro, transforme-me num acéfalo, a exemplo dos seguidores de Lula e dos foliões. Não falo de deixar de usar o cérebro, mas sim de não ter essa coisa cinzenta que nos faz um mau tão bom e um bem tão ruim. Espera, espera, espera! Cancela esse e ouve o próximo. Vê se consegue fazer pra mim uma máquina do tempo personalizada e me envia para 1995, quando eu ainda era criança, feliz da vida, sorridente e tranquilo; nos tempos que meu maior sonho ou realização não era um complicado “transe-êxtase”, mas um simples recreio em meio a crianças iguais a mim, num parquinho surrado, mas acolhedor, com chão de terra e brinquedos enferrujados. Meus companheiros de uma infância perdida.

por João de Brito

É melhor ser direto

Narciso era um “auto-fanático”, apaixonado por ele mesmo. Narciso é o melhor exemplo de narcisista (lógico!). Em bom (ou mau) linguajar, era a fim de si mesmo. Decerto um vaidoso, arrumava-se para um culto próprio, para se ver refletido nas águas, para contemplar a si próprio num ritual de “auto-tesão”.

Não tenho nomes, mas há loucos por pés. Certamente não sou um deles; pés fedem, por isso, ou por motivos mais nobres, a evolução manteve-os longe do nariz. Adoradores de pés são insanos, gostam de chupar dedos alheios, dedões gordos, dedões magros, com unhas quebradas, encravadas, pés engordurados, amarelados pela falta de higiene; acometidos por pé-de-atleta, frieira. Lambem solas, até saltos. Um estranho gosto (de chão).

Há os espremedores de espinha, irmãos dos engolidores de catarro e meleca. Não podem ver uma protuberância que já empunham os dedos em posição de ataque. Nem sempre as investidas vêm com aviso prévio para os atacados. É um prazer, um êxtase, ver o purulento líquido escorrendo ou voando; dá até um gosto inesperado de “quero mais”.

“Cada louco com sua mania” e “gosto é que nem cu” são muito clichês. No caso de vontade louca é melhor ser direto: “Quero lamber teu ouvido!”

por João de Brito

Pedro, o balde

Pedro era um balde. Há quem diga que não, há quem não diga que não, há quem diga que sim. No fim das contas, Pedro era um balde.

Ele não parecia com um balde por lembrar um. Ele não parecia pelo tamanho ou algo do tipo. Ele era um balde. De ferro, com alça de ferro e capacidade para 20 litros. Odiava quando era cheio até a borda, porque quem o carregasse seguraria pela alça. Era doloroso. Podia-se sentir na feição do pobre Pedro o medo diante de uma torneira de grande vazão; Pedro e lavanderia não combinavam.

Como a maioria, Pedro queria se sentir seguro. E mesmo numa condição física ‘ligeiramente’ diferenciada, ia à procura do que desejava. Certa vez, estudou na escola especial onde cursava a 2ª série média para baldes de ferro II e III sobre oxidação. Nesse dia foi para casa se desviando da água, para não oxidar. Mas como era aluno aplicado, soube utilizar-se de um mecanismo, ao mesmo tempo, protetor e embelezador: tornou-se um balde cromado. O novo sucesso entre a galera.

Mesmo sendo um balde entre tantos humanos, Pedro era bastante sociável. Era cumprimentado por todas as velhinhas que comumente davam-lhe trocados para molhar as plantas. Trabalho que Pedro gostava, pois sempre tinha um dinheirinho para retocar a pintura, além de já ajudar nas despesas da casa. Conhecia os moleques jogadores de bola da rua: lavava os carros dos pais deles. Mas como nada é perfeito, cultivava, a contragosto, inimigos. O balde de plástico tinha inveja por Pedro ser mais brilhante, asseado e inteligente. Algumas bacias também não simpatizavam com o balde, talvez por não terem a mesma capacidade. Quanto à mangueira? A mangueira nem merece ser mencionada, ela é pura enrolação. Já a melhor amiga de Pedro era a torneira, que detinha o poder de controlar a água; e ,por amizade, diminuía o fluxo quando Pedro estava um pouco oxidado, evitando que o amigo fizesse feio na rua. Realmente uma grande amiga.

Pode-se pensar que sendo um balde, ele tenha sérias limitações. Engano. Pedro aprendeu a contornar sua situação de aparente desvantagem física. Ganhou, com o tempo, bastante impulsão, alargou sua alça para pular corda (ou pular alça, como ela dizia), o que fortaleceu sua estrutura. Especializou-se em trabalhar com água (sempre pela metade, não gostava de dores na alça), na função de aprendiz, lógico, pois ainda era menor de idade; mas dizia não gostar de trabalhar em construções, pelo medo de cair tinta ou secar cimento.

Odiava quando diziam “não-sei-quem não é pouca merda não, é um balde cheio” ou quando usavam um tal verbo “baldear” no sentido de vomitar. Nesses momentos se sentia um depósito de excrementos.

Tudo estava bem na pacata vida de Pedro, até que uma mulher entrou em seu cotidiano. Envolveram-se. Um estranho par. Noivaram com anel de diamante e tudo. Mas para acabar com a época de alegria, Pedro descobriu estar sendo traído por sua noiva, em quem ele tanto confiava. Foi sua primeira e última desilusão amorosa. Pedro se enforcou com a própria alça.

Na lápide de Pedro dizia: “Nesta vida foi balde, mas não apenas isso. Foi um balde cheio”.

por João de Brito

Nome: João Paulo
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Pseudo-escritor frustrado.


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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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