Uma última vez

Tão perto de ti,
Tão longe de mim.

Que aconteceu ao Sol,
Que até ontem ainda brilhava?

Hoje só há nuvens
E uma Lua pálida.

E dúvidas
E perguntas
E receios

E nenhuma resposta.

Será a vida apenas isso,
Uma busca interminável
Para um fim inevitável?

Por que então continuar
A buscar
A sofrer
A amar
A morrer?

Tão longe de ti,
Mais longe ainda de mim.

O que é o Sol
O que é a Lua

O que são essas dúvidas, perguntas, receios
O que é essa falta de respostas, essa busca sem fim
Esse sofrimento

Se não estás aqui
Para me amar
E para eu te amar?

Para eu esquecer a vida e a morte
A tristeza e o desespero
As simples angústias
De um simples humano?

Volta logo
E me salva novamente

Uma vez mais
Uma última vez.

por Guilherme
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A Travessia

É noite,
mas não há estrelas ou Lua iluminando o céu.
Apenas nuvens vermelhas,
anunciando um iminente temporal.

Encontro-me sozinho,
caminhando lentamente numa rua deserta.
O silêncio é quase absoluto,
quebrado apenas pelo som dos meus passos.

Um vento frio e contínuo vem contra mim,
queimando meu rosto,
como se tentasse me impedir de andar.
Mas não o deixo vencer-me, não desta vez.

Caminho com mais determinação,
e a ventania começa,
combinada com as primeiras gotas da chuva.

Quase desisto diante daquela força,
que me traz lembranças, pensamentos, tristeza, pessimismo.
Contudo continuo andando.
Não me darei por vencido novamente.

Avisto, então, uma luz ao longe,
vinda de uma porta entreaberta.
Não sei por que motivo,
mas começo a correr como se minha vida dependesse de chegar àquela porta.

A tempestade começa,
a água e o vento me empurram,
mais fortes a cada passo que dou,
e novamente penso em desistir.

Tento desviar esse pensamento,
e apenas corro.

Estou chegando à porta, falta pouco…
.
..

Mas, a poucos metros de alcançá-la,
caio,
como sempre acontece nos filmes.

A água da chuva parece me achatar contra o chão.
Tento me erguer, mas mal tenho forças para respirar.

Pela última vez, penso em desistir,
mas agora não creio que conseguirei vencer esse pensamento.

Começo a ceder ao peso da água
e à força do vento.
A escuridão começa a me dominar
e nada mais faço para impedi-la.

Quando nada além da morte parecia me restar,
a porta se abre
e a luz invade todo o lugar.

A tempestade pára subitamente, deixando apenas poças de água no asfalto.

Ouço passos ao longe,
que parecem ecoar até os confins da minha alma.
Livre do peso da chuva, levanto-me
e tento avistar quem se aproxima.

Mas não consigo, a luz é muito intensa.

Ao tentar me aproximar da porta, porém,
uma voz começa a falar comigo,
fazendo-me parar.

É uma voz doce, feminina,
à qual eu não cansaria de ouvir pelo resto de minha existência.

As palavras que me disse não tenho forças para repetir,
apenas digo que elas salvaram minha vida
e me fizeram sorrir,
algo que eu já pensava não poder fazer.

Quando a voz parou,
dei um passo hesitante em sua direção,
mas ela não me impediu,
simplesmente esperou.

Atravessei o portal,
e todas as minhas preocupações se foram.
Apenas a felicidade existia, mais forte e intensa que qualquer coisa.

Virei-me para a porta e a tranquei.
Nada mais importava.

por Guilherme

3º andar

E aqui estou
num momento de solidão física
mas num elevador lotado de pensamentos.

Pensamentos independentes de minha existência.
Pensamentos vivos que vêm e vão quando querem.

Me olham
Me analisam
Me estudam.

Zombam de mim por não compreendê-los.
Zombam por serem superiores a mim.
Zombam por serem simples, mas inalcançáveis.
Zombam de minha impotência, a impotência de um simples humano.

Sou inferior, eu sei.
Sou fraco, também sei isso.
Mas eles são apenas pensamentos,
e tentar compreendê-los é o sentido da minha existência.
(mesmo sabendo que nunca conseguirei)

Eles existem para mim.
Eu existo por eles.
Eminentes, mas apenas pensamentos.

(O elevador parou.
A porta abriu.)

É aqui que desço.

por Guilherme

Singelo momento

Por um instante
fez-se silêncio.
Nenhuma palavra,
nenhum suspiro,
nenhum murmúrio.
Apenas um cruzar de olhares
que nada significava para o resto do mundo,
mas que para eles era tudo.
Podiam sentir, como nunca antes,
os pensamentos, os sentimentos e as dúvidas
um do outro.
E sentiram-se completos,
felizes, invencíveis enquanto estivessem juntos.

Por um instante
dois pares de olhos se fecharam,
dois corpos se abraçaram
e duas pessoas se beijaram.

Por um instante,
que nada significava para o resto do mundo,
um novo amor nasceu.

por Guilherme

Pensamentos de um “morto consciente”

Morri, mas nada aconteceu. Ou melhor, nada do que eu pensava que iria acontecer quando “minha hora” chegasse. Não vi qualquer túnel com uma luz no fim, nem fui ao paraíso ou ao inferno. Minha “alma” sequer saiu do meu corpo.

Isso mesmo: estou morto, mas não completamente. Minha consciência, de alguma forma, ainda está “viva”. Não sei se isso ocorre com todo mundo que morre, só sei que, no momento, meu estado é esse – um “morto consciente”, e continuo percebendo tudo o que acontece ao meu redor, apesar de não poder influenciar em nada.

Minha última lembrança em vida foi uma bela pancada em conseqüência de um acidente de carro (eu estava bêbado, é claro). Não senti dor alguma, já que tudo foi tão rápido que sequer deu tempo de completar minha última exclamação ao ver que havia um caminhão vindo em sentido contrário: “Eita! Fu…” POF! Depois disso não lembro de mais nada, pelo menos até “acordar morto”.

Obviamente, não estou respirando, ouvindo ou vendo nada. Mas, de alguma maneira que não sei explicar, “sinto” tudo o que está acontecendo e, com uma certa alegria, percebi que consigo “ouvir” os pensamentos das pessoas.

Neste momento há alguns bombeiros tentando retirar meu corpo das ferragens.

“Xi… Esse aí já era”, um deles pensa.

“Antes ele do que eu…”, um outro deixa escapar. É um pensamento egoísta, mas ao menos verdadeiro.

Finalmente conseguem tirar meu corpo do carro. Me colocam numa espécie de saco para carregar cadáveres e me levam para o veículo do IML.

Chegando no tal instituto, um médico analisa rapidamente e sem muito interesse meu corpo, assina alguns papéis e fala monotonamente a uma enfermeira, apontando o local onde estou: “Tá liberado, pode levar”.

Passam-se algumas horas (não sei exatamente quantas, pois é difícil ter noção de tempo quando se está morto) e agora estou deitado numa mesa acolchoada. Alguém cantarolando me limpa, passa alguns produtos químicos em meu corpo – dentre eles formol, é claro –, maquia meu rosto (em vida eu tinha dito que nem morto faria isso, já que é coisa de “fresco”. Me enganei…) e, por fim, põe uma porção de algodão no meu nariz.

Chega a hora do velório. Há mais gente do que eu imaginei, mas não conheço nem a metade das pessoas. Nunca entendi o motivo de gostarem tanto de ver gente morta, será que pensam que vai ter algum lanche depois do enterro?

Minha mulher, segurando meu filho de 1 ano de idade, é a primeira a se aproximar do meu caixão. Sua expressão é triste e há lágrimas em seus olhos, mas o fato de “ouvir” seus pensamentos me faz não sentir tanta pena de sua situação:

“Irresponsável! Com mulher e filho pra sustentar, inventa de dirigir bêbado. Agora morreu e me deixou sem nenhum tostão… Eu devia ter largado ele quando o Tonho me chamou pra casar. Como eu fui burra! Espero que ele ainda me queira”.

E se afastou, chorando mais ainda.

O Tonho era meu melhor amigo, a gente se conhecia desde criança. Assim como eu, ele trabalhava como pedreiro, geralmente fazendo reforma em casas. Aos domingos, quase sempre a gente ia no bar do Pepeu tomar algumas “marvadas” e bater um papo.

Ele era um cara legal, pelo menos parecia ser. Foi ele, por exemplo, que me vendeu o Chevette em que acabei morrendo, a um preço bem abaixo do normal. Na época até suspeitei de que fosse roubado, mas nem me importei.

Agora eu daria qualquer coisa para esganar aquele maldito e a vagabunda da minha mulher. Parece que morrer não é tão bom quanto eu pensei. Saber o que as pessoas pensavam e escondiam de mim é realmente ruim…

O velório continua, com vários desconhecidos passando e me olhando:

“Vixi Maria… Como ele tá pálido!”.

“Será que se eu cutucar o ombro dele ele se mexe?”.

“Tira a mão daí menino! Não pega no morto, isso dá azar!”.

“Tadinho, deve ter doído… Deus tenha piedade da alma dele!”.

“Será que o lanche vai demorar?”

Algum tempo depois, finalmente fecham meu caixão e levam meu corpo para o cemitério. Lentamente me colocam na cova e começam a tapar. Em questão de minutos tudo acaba e sou deixado naquele lugar escuro, solitário, úmido e silencioso…

Quero sair daqui!!!

– Zé? Acorda Zé! – ouço a voz do Tonho me chamando.

– Que foi? – respondo.

– Ufa… Pensei que tu tinha desmaiado! Já tava preocupado por ter que te carregar até em casa.

– Quanto tempo eu fiquei apagado, Tonho? – eu pergunto.

– Acho que uns 10 ou 15 minutos. Eu tinha ido no banheiro e quando voltei tu tava aqui debruçado na mesa…

–Ah, tá… Então foi só um sonho… – eu falo, mais para mim mesmo.

– Que foi rapaz? Tá com uma cara estranha!

Eu olho para ele, pensativo, por alguns segundos. Então tomo a minha decisão: me levanto, inspiro bem forte e grito em direção ao balcão:

– Pepeu, traz mais uma dose da marvada que hoje eu vou beber até cair!

por Guilherme

Holometabolismo

Vejo o mudo pelos cantos dos olhos, sempre fui assim. Em vez de encarar as pessoas que vêm em minha direção, as vejo no insignificante instante em que passam por mim. Enquanto caminho, minha atenção se volta mais para o que está a meu lado do que a minha frente.

Inútil loucura. Já perdi a conta de quantos amores e histórias fantásticas criei, envolvendo os personagens dos limites de meu horizonte sem nitidez. Finjo conversar assuntos intermináveis, desde os triviais aos de grande importância, dos racionais aos da mais profunda emoção. Mas essas fugas tão surreais são mais frágeis que a mais delicada porcelana. Basta um ruído dissonante ou outra interrupção do “mundo externo” para toda a ilusão se desfazer.

 

Neste momento me encontro sentado em um ônibus quase completamente vazio, ao lado de uma das janelas. Árvores e prédios, carros e motos; vejo-os passando rapidamente a meu lado, enquanto mergulho em pensamentos que me levam a lugares infinitamente distantes dali.

Quase não percebo a aproximação de uma jovem e bela mulher. Se não fosse seu perfume de fragrância doce e única, talvez nem a notasse. Ela pára ao lado do banco em que estou e olha ao redor, percebendo as várias opções onde sentar-se, e em seguida fixa sua atenção em mim.

Seus olhos cor de mel parecem invadir minha mente, minha alma, meu mundo. Sinto-me nu diante do poder que eles exercem sobre mim. Tento desviar meu olhar, em vão esforço, e sinto meus batimentos cardíacos acelerarem. Nunca antes alguém foi tão longe pelas estradas do meu ser, muito menos uma pessoa desconhecida.

Parecendo contente ao perceber meu desconcerto, ela sorri meigamente e senta-se ao meu lado. Seus olhos já não me fitam, porém ainda sinto seu poder. Não tenho defesa contra aquela linda e cruel mulher.

– De que adianta viver assim, escondendo-se nesse casulo invisível que você mesmo criou? – ela repentinamente fala – Há tempos sua ecdise deveria ter ocorrido. Mais cedo ou mais tarde você terá que aceitar este mundo como o único, é inevitável.

– Como posso aceitar algo repleto de máculas como meu mundo? – surpreendo-me com minha “pergunta-reposta” – Essa sujeira egoísta chamada ser humano que só sabe destruir e corromper tudo o que toca não pode ser a raça mais evoluída deste planeta. Até os vírus, creio, são mais benevolentes que o homem.

– Então você não se considera um ser humano? Você também não mancha a bela obra-prima que é a natureza? Você também não é uma sujeira pseudo-evoluída?

– Claro que sou, e este é o motivo para eu permanecer em meu casulo. Aqui estou protegido e confortável, nada pode me atingir. Aqui eu que dito as regras, e as conseqüências de minhas ações só dizem respeito a mim e a mais ninguém. Aqui não sou julgado ou condenado; não sou vilão ou herói. Sou apenas eu.

Ela parece vacilar ao fim do meu comentário misantrópico. Seus olhos se fecham e sua cabeça pende tristemente para baixo. Minutos se passam em completo silêncio, tempo esse que me deixa aflito.

– Desculpe se a magoei – eu digo suavemente.

– Não se preocupe, não me magoou – ela responde erguendo seu rosto e me encarando com os olhos a marejar lágrimas, apesar de um lindo sorriso estampar em seu rosto – Apenas me entristeci por saber de sua solidão. Você talvez não perceba, ou provavelmente finge não perceber, mas seu mundo está se tornando cada vez mais frio e escuro. Se continuar assim, todo o pouco interesse pela vida que você ainda possui minguará até desaparecer, e o único caminho restante será o suicídio.

– Você pode até se sentir seguro em seu mundo e ter seus motivos para permanecer nele, mas há algo que nunca conseguirá alcançar se decidir fazer isso: o amor. Mesmo neste mundo em que a crueldade e o egoísmo começam a imperar, sempre há resquícios de amor em alguma parte, e por ele vale a pena permanecer vivo e no “mundo real”, por maior que seja o sofrimento.

– A escolha é sua. Com certeza não é fácil, mas infelizmente é necessária. Pense bem.

Dito isto ela beija minha face e se levanta. Faz sinal para o ônibus parar e desce sem sequer olhar para trás.

Permaneço calado e pensativo o resto da viagem, ainda vendo o mundo pelos cantos dos olhos. Mas sinto que algo dentro de mim está mudando, algo que me faz involuntariamente olhar para frente.

O local em meu rosto onde ela havia beijado parece quente, de um calor tão intenso que alcança até o lugar mais profundo e frio de meu mundo.

Chego ao ponto final. Desço do ônibus e olho para o céu. Minha escolha está feita, a metamorfose enfim acabou.

por Guilherme

Reflexões numa tarde monótona

Tédio
à sombra de uma árvore
numa tarde quente
e lenta.

O tempo parece não passar,
os segundos são intermináveis.
As árvores balançam preguiçosas,
conforme o vento as contorna.

Tédio
num lugar esquecido pelo mundo
e por Deus.
Sinto-me esquecido.

Vida insignificante e sem sentido
que parece nunca acabar.
“Por que existo?”, nem adianta perguntar.
Não há resposta.

Tédio
apenas permaneço
nessa infelicidade irritante
que infelizmente me conforta.

Odeio ser eu
e não poder ser.
Odeio tudo
e odeio odiar.

por Guilherme

Nome: João Paulo
Onde: São Luís - MA

Pseudo-escritor frustrado.


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Nome: Nilson
Onde: São Luís - MA

Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Nome: Guilherme
Onde: São Luís - MA

Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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