Arquivo para junho \27\UTC 2011

A história antes do fim

Meu estraga-surpresa sentenciou, recentemente, o que me era pra ser incerto. Agora falta aquela sensação de ter do fim alguma informação, menos o exato tempo de morrer. O médico estraga-surpresa me deu dois anos, eu aceitei com um amargor na boca e escondendo o desespero interno. Debatia-me por dentro; por fora, a falsa serenidade de quem toda a vida treinou a feição do que pouco se importa.

Começaram, então, as visitas. Parentes distantes fingindo pesar, amigos próximos sem saber direito o que falar, funcionários do hospital me cobrindo de palavras talvez já treinadas. Meu egoísmo não queria exposição ou cama rodeada de olhares analíticos; queria mesmo me desligar do mundo externo para organizar o interno. Por um tempo gastei educação e paciência com as visitas, daí fui me perdendo ou me encontrando numa briga pessoal entre o eu-dramático e o eu-dominador-da-situação. Penso, porém, que me encontrei e foi no tratar a situação com serenidade. Nego o fim da tal briga, acontece que me pedi calma.

As visitas foram diminuindo e meus planos crescendo mentalmente. Eu já não era mais a novidade da família ou do hospital (de onde logo saí). Voltei para casa no velho carro do meu avô, uma Kombi branca, o carro que eu sempre quis ter e nunca criei coragem de comprar. Em mãos eu tinha um cronograma, exames que me obrigavam a retornar ao hospital quatro vezes por semana, freqüência exaustiva e procura cega por uma solução para o meu caso; situações com as quais eu não sabia lidar e nem garantia agüentar por muito tempo. Na casa dos meus pais tudo do mesmo jeito de 11 meses atrás, quando deixei o lugar numa troca compulsória pela cama reclinável do hospital. Meu quarto era o mesmo, minhas fotos de infância em quadros na parede, os livros, filmes e revistas. Certeza eram colcha e lençol recém-trocados e com cheiro de casa, coisa de que eu sentia muita falta. A cama reclinável traz um tom de imparcialidade, a minha cama é parcial, é minha. Eu me sentia em casa porque estava em casa.

Durante alguns dias pensei meses sobre minha situação; agora há meses em casa, penso dias em mim. Confesso ter pensado bastante sobre meu avô. Tive o desprazer de vê-lo morrer aos 73 anos. Acompanhei o enterro, ao lado da minha avó, deste velho retirante da seca do Ceará. Depressão: dele, não minha. Prometi-me a sanidade mental e a vontade de continuar vivo esquecendo prazos.

Desde sempre alternei choques de realidade com surtos de revolucionário de sofá e entusiasta de idéias bobas. Imaginar-se realmente como o personagem de Tom Hanks em “Quero ser grande” ou Ferris Bueller em “Curtindo a vida adoidado” era garantia de tempo gasto (ou aproveitado) em imaginação saudável, fantasia. Personagens símbolos de liberdade sempre me atraíram, eles eram heróis enquanto a mente da criança voava. Hoje divido minha idéia de liberdade entre os heróis antigos e a dupla de “Antes de partir” Jack Nicholson e Morgan Freeman. Digo que são neste filme o clichê certo para emocionar, doentes terminais que decidem conhecer o quanto puderem do mundo. Quero e não quero ser grande e curtir a vida adoidado antes de partir, mesmo tendo que admitir estar numa fase de preferência pelo choque de realidade.

Entendi que os médicos não têm mais muito em que me ajudar quando diminuíram minhas idas ao hospital. Admito ter gostado. O choque de realidade já tinha perdido força e eu podia aproveitar melhor o tempo livre e delimitado que me deram. Tenho corrido pela manhã com meus pais, assim eles alongam a vitalidade e eu curto a minha. O clichê de conhecer o mundo não me fisgou, preferi conhecer melhor o pequeno mundo que me rodeia.

A vida anda em fotogramas que revejo mentalmente. Enquanto enxergo o que não via e escrevo, fico pequeno para as minhas roupas. Antes que eu perca as forças vou andar de Kombi. Se me faltar o olfato, já gravei o cheiro da minha casa e dos meus pais. Decidi que não quero parecer em nada com o cinema. Sem exaltações, atos memoráveis ou loucuras adolescentes. Só quero me sentir em casa por estar em casa de agora até…

por João de Brito
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Pseudo-escritor frustrado.


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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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