Hoje eu quero fazer tudo por você

Eu e minha Júlia estávamos no sábado prontos para sair e procurar nosso novo apartamento. Dessa vez nada de aluguel, íamos ter o nosso próprio. Na verdade, só ela estava pronta para sair (incrivelmente).

– Calma, meu amor, pensei que a bermuda estivesse limpa, mas cheirei a virilha e não tá muito agradável. Me arrumo num instante.
– Põe uma calça. Você já é homenzinho – falou em tom de brincadeira.

Peguei, então, a primeira calça que vi e cheirei a virilha: tudo tranquilo. Até ali tínhamos apenas um carro que se desdobrava numa tentativa quase impossível de atender a ambas necessidades diárias. Sorte que trabalhávamos em turnos diferentes, eu de manhã, ela de tarde.

Eu preferia sempre dirigir quando estávamos em dois, afinal, entre nós era instituído em cartório que quem dirigia, escolhia a música. Perceba que tenho razão, pois não é possível aguentar todo dia o mesmo cd da Simone. Já basta no natal. Escolhi para aquele dia o acústico mtv do Bob Dylan. Aliás, que música essa All along the watchtower. Dave Matthews Band pode gravar quantas vezes quiser, não fará melhor que Dylan, embora não faça feio. Hendrix quase empata.

Não demorou e chegamos ao falado Bosque. Adicionamos casas à busca. Também não demorou para sairmos. Júlia alegou: “Senti algo estranho naquele lugar, sei lá, não era nossa casa”. Continuamos e a essa altura já tocava The times they are a-changin. Gran Village foi descartado com menos rapidez e mais argumentos: “Calçada muito estreita, casa apertada, mal-localizada. E as crianças, onde vão brincar?”. Essa talvez tenha sido a única explicação concreta dada por Júlia nos nossos dois dias de procura. Em geral, ela se justificava com a famigerada intuição feminina. Justificativa que eu prontamente aceitava, não que eu achasse plausível, mas sim porque é pouco prudente discutir com uma mulher fazendo compras. Não tinha motivos para acabar com minha tranquilidade. Ela sabe que só exijo minha estante pros filmes e a mesa para o notebook.

O primeiro dia de busca passou e deixou em mim, mais do que nela, um cansaço que 8 horas de sono não dariam conta. Já deitado pensei em contar a Júlia sobre um velho endereço que eu havia guardado há uns 10 anos, antes mesmo de nos conhecermos. Aquela casa tinha entrado em minha mente como nenhuma outra: dois andares, janelas foscas de vidro, portas de madeira com fibras bem aparentes, persianas charmosas. Incrível como num estalo as memórias se tornam nítidas e lá estava eu de novo acordando dentro do carro. Daquela vez o bêbado não conseguiu chegar em casa e dormiu na rua. “Sei que tenho o tal endereço guardado em alguma gaveta. Tomara que o papel não tenha se desfeito”. Encontrei, mas ao voltar para cama Júlia já havia caído de sono. Uma pena, pois ia contar a ela dos detalhes no portão que eu havia lembrado no caminho da sala para o quarto com uma breve parada na cozinha.

No segundo dia de buscas me dei ao direito de incluir um destino, coisa que eu ainda não havia feito. Uma casa que não saia da minha cabeça lá pelos lados do cohafuma, perto de um apartamento que já íamos mesmo ver. Peregrinamos, então, por mais uma série de casas e apartamentos. Todos rejeitados por motivos não tão diversos. E Júlia com sua mania de ler rápido não percebeu uma caligrafia diferente na folha de endereços já ladeada de riscos indicando casas descartadas. Já que Júlia não havia percebido um destino a mais, decidi não contar nada. Não queria influenciar.

Chegamos ao apartamento próximo da casa que tanto falo. Júlia aprovou a entrada, o elevador, as escadas, prestou atenção até nas luzes no teto dos corredores e comentou com ar de criança empolgada: “Acendem automaticamente”. Gostou do tamanho dos quartos, da amplitude da varanda, reclamou dos armários na parede e prometeu trocar por uns mais modernos. Ela me olhou como que pedindo aprovação. Não entendi se era sobre comprar o apartamento ou trocar os armários (ou os dois). Acabei por fazer cara de nada. Eu tinha gostado do apartamento, mas o talão de cheques não sentia vontade de pular do bolso. Mentira, eu ainda pensava na tal casa. Ficamos, então, de continuar a procurar e dar uma resposta a corretora depois.

Nosso destino seguinte era bem próximo, fomos andando e conversando.

– Seria bom se decidíssemos logo hoje, amanhã já é segunda, temos que trabalhar – eu disse.
– Gostei do que vimos agora. Só não entendi a sua feição quando lhe olhei.
– Não sei bem…quer dizer, gostei do lugar, é espaçoso, tem… – havíamos chegado.
– Uma amiga mora logo ali – disse Júlia apontando o outro lado da rua.

Estava do mesmo modo que vi há tantos anos. E graças a coincidências que acontecem bastante em textos e pouco na vida, a casa mostrava numa placa já gasta pendurada numa das janelas do segundo andar a inscrição “Aluga-se”. Estranhei Júlia não ter se perguntado o porquê de “ela ter colocado” uma casa para alugar na lista. Ficamos eu e ela em pé na calçada larga, meus olhos mirando a placa, em seguida as janelas. Júlia foi com o olhar rapidamente da placa, para as janelas e a porta da frente, até que chegou em mim e parou. Eu não sorria, não exibia nenhuma expressão fácil de notar, apenas estava lá contemplando. Descobri no instante seguinte que não precisaria sorrir ou argumentar para ser entendido. Quando nossa corretora finalmente nos alcançou… bom, digamos que minha Júlia me entende.

– É essa nossa casa – disse ela com um sorrisinho.

Passava pouco do meio-dia, nos apressamos para resolver tudo naquele dia. Decidimos dormir logo na nossa nova casa. Era bem maior que o antigo apartamento, precisaríamos comprar mais móveis. Quanto ao aluguel, resolveria isso depois. De improviso, fizemos uma limpeza rápida, levamos colchão, roupas de cama e toalhas. Com sorte teria água nos chuveiros.

A noite, com a cama arrumada, fui tomar banho enquanto Júlia lia algo já deitada à luz do abajur que vi a um canto. Abri o chuveiro e me perdi com a visão através da janelinha. Duas senhoras conversando, um skatista com aqueles tênis estranhos e tive quase certeza de ver meio coberto pelas samambaias da entrada um homem com roupas bem bregas estilo anos 80. Ao fim do banho me despedi daquela rua amarelada pela luz dos postes e fui me deitar. Demorei-me um pouco à porta, precisava acostumar os sentidos ao novo ambiente.

– O que te fez querer a casa sem nem ter entrado primeiro? – perguntei a Júlia já com a certeza de ouvir “intuição feminina” como resposta.
– Sabia que adoro te ver dormir? Parece criança de boca aberta – disse ela com um sorriso de canto de boca e deu “boa noite”.

Não entendi bem, mas fui dormir de boca aberta, como sempre.

por João de Brito
Anúncios

7 Responses to “Hoje eu quero fazer tudo por você”


  1. 1 nathalia. 11 fevereiro, 2011 às 12:52 pm

    eu tb tenho uma obsessão, mas é com um apartamento que fica em Fortaleza. três andares, varanda com uma grade de ferro à moda antiga, tudo meio marrom e simples. tem muito sonho meu lá.

    e já faz uma semana que All Along The Watchtower não sai da minha cabeça, só que com o Hendrix cantando 🙂

  2. 2 Guilherme Gurgel 11 fevereiro, 2011 às 1:13 pm

    Gostei da história. Mostrou que mesmo um tema tão simples, o cotidiano, pode se tornar interessante se bem escrito. Só fiquei me perguntando se a casa existe mesmo, hehe.

  3. 5 Guilherme Gurgel 11 fevereiro, 2011 às 1:15 pm

    Ah, e quando vai ter a continuação do “Pedro, o Balde”? 😛

  4. 6 João de Brito 11 fevereiro, 2011 às 4:51 pm

    A casa existe e não existe. Me inspirei na casa da Mia de Californication.

    Pedro, o balde deixou muitos fãs (haha). Não sei quando ele retorna do sono eterno.

  5. 7 Renata Sousa 22 fevereiro, 2011 às 4:07 pm

    Aii! Gostei tanto dessa estória, João.. Me prendeu do início ao fim. Muito legal. Concordo com o Guilherme quando ele diz que um tema tão simples pode se tornar interessantíssimo! Eu adoro escrever tbm, de vez em quando. Mas a sua “performance” aqui, me impressinou.
    Parabéns! Vou visitar aqui mais vezes.. Pode ter certeza.
    Beeijo :**


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s




Nome: João Paulo
Onde: São Luís - MA

Pseudo-escritor frustrado.


Orkut
Last.fm
E-mail
---

Nome: Nilson
Onde: São Luís - MA

Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


Orkut
E-mail
---

Nome: João de Brito
Onde: São Luís - MA

Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


Orkut
E-mail
---

Nome: Guilherme
Onde: São Luís - MA

Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


Blog
E-mail

a


%d blogueiros gostam disto: