Pensamentos de um “morto consciente”

Morri, mas nada aconteceu. Ou melhor, nada do que eu pensava que iria acontecer quando “minha hora” chegasse. Não vi qualquer túnel com uma luz no fim, nem fui ao paraíso ou ao inferno. Minha “alma” sequer saiu do meu corpo.

Isso mesmo: estou morto, mas não completamente. Minha consciência, de alguma forma, ainda está “viva”. Não sei se isso ocorre com todo mundo que morre, só sei que, no momento, meu estado é esse – um “morto consciente”, e continuo percebendo tudo o que acontece ao meu redor, apesar de não poder influenciar em nada.

Minha última lembrança em vida foi uma bela pancada em conseqüência de um acidente de carro (eu estava bêbado, é claro). Não senti dor alguma, já que tudo foi tão rápido que sequer deu tempo de completar minha última exclamação ao ver que havia um caminhão vindo em sentido contrário: “Eita! Fu…” POF! Depois disso não lembro de mais nada, pelo menos até “acordar morto”.

Obviamente, não estou respirando, ouvindo ou vendo nada. Mas, de alguma maneira que não sei explicar, “sinto” tudo o que está acontecendo e, com uma certa alegria, percebi que consigo “ouvir” os pensamentos das pessoas.

Neste momento há alguns bombeiros tentando retirar meu corpo das ferragens.

“Xi… Esse aí já era”, um deles pensa.

“Antes ele do que eu…”, um outro deixa escapar. É um pensamento egoísta, mas ao menos verdadeiro.

Finalmente conseguem tirar meu corpo do carro. Me colocam numa espécie de saco para carregar cadáveres e me levam para o veículo do IML.

Chegando no tal instituto, um médico analisa rapidamente e sem muito interesse meu corpo, assina alguns papéis e fala monotonamente a uma enfermeira, apontando o local onde estou: “Tá liberado, pode levar”.

Passam-se algumas horas (não sei exatamente quantas, pois é difícil ter noção de tempo quando se está morto) e agora estou deitado numa mesa acolchoada. Alguém cantarolando me limpa, passa alguns produtos químicos em meu corpo – dentre eles formol, é claro –, maquia meu rosto (em vida eu tinha dito que nem morto faria isso, já que é coisa de “fresco”. Me enganei…) e, por fim, põe uma porção de algodão no meu nariz.

Chega a hora do velório. Há mais gente do que eu imaginei, mas não conheço nem a metade das pessoas. Nunca entendi o motivo de gostarem tanto de ver gente morta, será que pensam que vai ter algum lanche depois do enterro?

Minha mulher, segurando meu filho de 1 ano de idade, é a primeira a se aproximar do meu caixão. Sua expressão é triste e há lágrimas em seus olhos, mas o fato de “ouvir” seus pensamentos me faz não sentir tanta pena de sua situação:

“Irresponsável! Com mulher e filho pra sustentar, inventa de dirigir bêbado. Agora morreu e me deixou sem nenhum tostão… Eu devia ter largado ele quando o Tonho me chamou pra casar. Como eu fui burra! Espero que ele ainda me queira”.

E se afastou, chorando mais ainda.

O Tonho era meu melhor amigo, a gente se conhecia desde criança. Assim como eu, ele trabalhava como pedreiro, geralmente fazendo reforma em casas. Aos domingos, quase sempre a gente ia no bar do Pepeu tomar algumas “marvadas” e bater um papo.

Ele era um cara legal, pelo menos parecia ser. Foi ele, por exemplo, que me vendeu o Chevette em que acabei morrendo, a um preço bem abaixo do normal. Na época até suspeitei de que fosse roubado, mas nem me importei.

Agora eu daria qualquer coisa para esganar aquele maldito e a vagabunda da minha mulher. Parece que morrer não é tão bom quanto eu pensei. Saber o que as pessoas pensavam e escondiam de mim é realmente ruim…

O velório continua, com vários desconhecidos passando e me olhando:

“Vixi Maria… Como ele tá pálido!”.

“Será que se eu cutucar o ombro dele ele se mexe?”.

“Tira a mão daí menino! Não pega no morto, isso dá azar!”.

“Tadinho, deve ter doído… Deus tenha piedade da alma dele!”.

“Será que o lanche vai demorar?”

Algum tempo depois, finalmente fecham meu caixão e levam meu corpo para o cemitério. Lentamente me colocam na cova e começam a tapar. Em questão de minutos tudo acaba e sou deixado naquele lugar escuro, solitário, úmido e silencioso…

Quero sair daqui!!!

– Zé? Acorda Zé! – ouço a voz do Tonho me chamando.

– Que foi? – respondo.

– Ufa… Pensei que tu tinha desmaiado! Já tava preocupado por ter que te carregar até em casa.

– Quanto tempo eu fiquei apagado, Tonho? – eu pergunto.

– Acho que uns 10 ou 15 minutos. Eu tinha ido no banheiro e quando voltei tu tava aqui debruçado na mesa…

–Ah, tá… Então foi só um sonho… – eu falo, mais para mim mesmo.

– Que foi rapaz? Tá com uma cara estranha!

Eu olho para ele, pensativo, por alguns segundos. Então tomo a minha decisão: me levanto, inspiro bem forte e grito em direção ao balcão:

– Pepeu, traz mais uma dose da marvada que hoje eu vou beber até cair!

por Guilherme
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5 Responses to “Pensamentos de um “morto consciente””


  1. 1 João Neto 12 setembro, 2007 às 6:39 pm

    ô Gui, adorei o texto, de verdade. 🙂
    Gostei da forma de percepção das situações, da “abordagem” da morte, dos locais bem cohatraquenses/cohatraquianos (o clássico Pepeu), da crítica aos costumes de funeral e dos nomes dos personagens. Quando o texto é bom, causa riso quando é pra causar e alerta com críticas quando necessário: o teu fez isso e mais.
    Sou teu fã.

  2. 2 João Paulo 12 setembro, 2007 às 9:24 pm

    Lindo! Genial! Tonho é bem nome de pedreiro safado. Gostei da ligação do fim e do título.
    Maravilindo!

  3. 3 Gabi 12 setembro, 2007 às 11:45 pm

    Adorei o texto bb, muito bom mesmo.
    Essa de joao ai em cima, de tonho é de se concordar, rsrsr.

  4. 4 Chris Ferreira 17 setembro, 2007 às 10:00 am

    Gostei muito.. Eu volto..
    E vou add no blogroll..

    Bjus,

  5. 5 Simone Miletic 18 setembro, 2007 às 7:55 pm

    Eu só achei que o final ia ser diferente: ele colocando Tonho na direção do Chevete…

    Si


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