Pedro, o balde

Pedro era um balde. Há quem diga que não, há quem não diga que não, há quem diga que sim. No fim das contas, Pedro era um balde.

Ele não parecia com um balde por lembrar um. Ele não parecia pelo tamanho ou algo do tipo. Ele era um balde. De ferro, com alça de ferro e capacidade para 20 litros. Odiava quando era cheio até a borda, porque quem o carregasse seguraria pela alça. Era doloroso. Podia-se sentir na feição do pobre Pedro o medo diante de uma torneira de grande vazão; Pedro e lavanderia não combinavam.

Como a maioria, Pedro queria se sentir seguro. E mesmo numa condição física ‘ligeiramente’ diferenciada, ia à procura do que desejava. Certa vez, estudou na escola especial onde cursava a 2ª série média para baldes de ferro II e III sobre oxidação. Nesse dia foi para casa se desviando da água, para não oxidar. Mas como era aluno aplicado, soube utilizar-se de um mecanismo, ao mesmo tempo, protetor e embelezador: tornou-se um balde cromado. O novo sucesso entre a galera.

Mesmo sendo um balde entre tantos humanos, Pedro era bastante sociável. Era cumprimentado por todas as velhinhas que comumente davam-lhe trocados para molhar as plantas. Trabalho que Pedro gostava, pois sempre tinha um dinheirinho para retocar a pintura, além de já ajudar nas despesas da casa. Conhecia os moleques jogadores de bola da rua: lavava os carros dos pais deles. Mas como nada é perfeito, cultivava, a contragosto, inimigos. O balde de plástico tinha inveja por Pedro ser mais brilhante, asseado e inteligente. Algumas bacias também não simpatizavam com o balde, talvez por não terem a mesma capacidade. Quanto à mangueira? A mangueira nem merece ser mencionada, ela é pura enrolação. Já a melhor amiga de Pedro era a torneira, que detinha o poder de controlar a água; e ,por amizade, diminuía o fluxo quando Pedro estava um pouco oxidado, evitando que o amigo fizesse feio na rua. Realmente uma grande amiga.

Pode-se pensar que sendo um balde, ele tenha sérias limitações. Engano. Pedro aprendeu a contornar sua situação de aparente desvantagem física. Ganhou, com o tempo, bastante impulsão, alargou sua alça para pular corda (ou pular alça, como ela dizia), o que fortaleceu sua estrutura. Especializou-se em trabalhar com água (sempre pela metade, não gostava de dores na alça), na função de aprendiz, lógico, pois ainda era menor de idade; mas dizia não gostar de trabalhar em construções, pelo medo de cair tinta ou secar cimento.

Odiava quando diziam “não-sei-quem não é pouca merda não, é um balde cheio” ou quando usavam um tal verbo “baldear” no sentido de vomitar. Nesses momentos se sentia um depósito de excrementos.

Tudo estava bem na pacata vida de Pedro, até que uma mulher entrou em seu cotidiano. Envolveram-se. Um estranho par. Noivaram com anel de diamante e tudo. Mas para acabar com a época de alegria, Pedro descobriu estar sendo traído por sua noiva, em quem ele tanto confiava. Foi sua primeira e última desilusão amorosa. Pedro se enforcou com a própria alça.

Na lápide de Pedro dizia: “Nesta vida foi balde, mas não apenas isso. Foi um balde cheio”.

por João de Brito
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9 Responses to “Pedro, o balde”


  1. 1 Anderson 6 setembro, 2007 às 11:17 pm

    Gostei cara, foi bem, bem diferente.
    Me “emocionei” ao ver que vc colocou algo sobre química, texto criativo.
    Tu tem que fazer um sobre pinguins, eles são um ótimo exemplo de vida!!!

  2. 2 Guilherme Gurgel 7 setembro, 2007 às 3:45 pm

    Ficou ótimo. Sempre me pergunto de onde tu tira essas idéias…

  3. 3 Rafael Reinehr 9 setembro, 2007 às 12:28 pm

    João, que vida curta teve Pedro, o balde! Este seu conto psicodélico me lembrou um que escrevi, tempos atrás, chamado “Um vaso de flores”, que pode ser encontrado na edição de número 101 do Simplicíssimo: http://www.simplicissimo.com.br/anteriores/101.php#editorial

    Leia e diga se não são afins.

  4. 4 Marcos Atahualpa... ou Buda... Buds 10 setembro, 2007 às 3:01 pm

    Irônico demais sauhashusahuhuhuashu
    bom bom… ahhh sobre o meu texto.. num pensei em nd não… só escrevi mesmo!
    ma svaleu aew meu véi.. paz…

  5. 6 João Neto 11 setembro, 2007 às 7:24 pm

    Boa, Gui. 😀

  6. 7 Gabi 12 setembro, 2007 às 11:53 pm

    Tadinho do balde…
    Ficou otimo, mas de onde é que tu tira essas idéias?
    Bju 🙂

  7. 8 Simone 3 dezembro, 2007 às 9:11 am

    Eh muito acido mesmo!!! rs… cuidado!

  8. 9 mirabelle 5 junho, 2008 às 6:41 pm

    shooow de bola

    ;DDD


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