Arquivo para setembro \28\UTC 2007

É melhor ser direto

Narciso era um “auto-fanático”, apaixonado por ele mesmo. Narciso é o melhor exemplo de narcisista (lógico!). Em bom (ou mau) linguajar, era a fim de si mesmo. Decerto um vaidoso, arrumava-se para um culto próprio, para se ver refletido nas águas, para contemplar a si próprio num ritual de “auto-tesão”.

Não tenho nomes, mas há loucos por pés. Certamente não sou um deles; pés fedem, por isso, ou por motivos mais nobres, a evolução manteve-os longe do nariz. Adoradores de pés são insanos, gostam de chupar dedos alheios, dedões gordos, dedões magros, com unhas quebradas, encravadas, pés engordurados, amarelados pela falta de higiene; acometidos por pé-de-atleta, frieira. Lambem solas, até saltos. Um estranho gosto (de chão).

Há os espremedores de espinha, irmãos dos engolidores de catarro e meleca. Não podem ver uma protuberância que já empunham os dedos em posição de ataque. Nem sempre as investidas vêm com aviso prévio para os atacados. É um prazer, um êxtase, ver o purulento líquido escorrendo ou voando; dá até um gosto inesperado de “quero mais”.

“Cada louco com sua mania” e “gosto é que nem cu” são muito clichês. No caso de vontade louca é melhor ser direto: “Quero lamber teu ouvido!”

por João de Brito

Selva das árvores frias

Ache as presenças
Na selva das árvores frias
Deles irá ganhar
Talvez nunca entenderá
Corra e estampe
o sorriso em sua face
Será assim sempre
dia após dia
O cálice vazio
e eu cheio de tudo
sinceramente me enganei
sem saber quem está errado
Parto
Rumo ao fogo
Ninguém pede licença
Eu morro
Em galhos secos

por Nilson

Pensamentos de um “morto consciente”

Morri, mas nada aconteceu. Ou melhor, nada do que eu pensava que iria acontecer quando “minha hora” chegasse. Não vi qualquer túnel com uma luz no fim, nem fui ao paraíso ou ao inferno. Minha “alma” sequer saiu do meu corpo.

Isso mesmo: estou morto, mas não completamente. Minha consciência, de alguma forma, ainda está “viva”. Não sei se isso ocorre com todo mundo que morre, só sei que, no momento, meu estado é esse – um “morto consciente”, e continuo percebendo tudo o que acontece ao meu redor, apesar de não poder influenciar em nada.

Minha última lembrança em vida foi uma bela pancada em conseqüência de um acidente de carro (eu estava bêbado, é claro). Não senti dor alguma, já que tudo foi tão rápido que sequer deu tempo de completar minha última exclamação ao ver que havia um caminhão vindo em sentido contrário: “Eita! Fu…” POF! Depois disso não lembro de mais nada, pelo menos até “acordar morto”.

Obviamente, não estou respirando, ouvindo ou vendo nada. Mas, de alguma maneira que não sei explicar, “sinto” tudo o que está acontecendo e, com uma certa alegria, percebi que consigo “ouvir” os pensamentos das pessoas.

Neste momento há alguns bombeiros tentando retirar meu corpo das ferragens.

“Xi… Esse aí já era”, um deles pensa.

“Antes ele do que eu…”, um outro deixa escapar. É um pensamento egoísta, mas ao menos verdadeiro.

Finalmente conseguem tirar meu corpo do carro. Me colocam numa espécie de saco para carregar cadáveres e me levam para o veículo do IML.

Chegando no tal instituto, um médico analisa rapidamente e sem muito interesse meu corpo, assina alguns papéis e fala monotonamente a uma enfermeira, apontando o local onde estou: “Tá liberado, pode levar”.

Passam-se algumas horas (não sei exatamente quantas, pois é difícil ter noção de tempo quando se está morto) e agora estou deitado numa mesa acolchoada. Alguém cantarolando me limpa, passa alguns produtos químicos em meu corpo – dentre eles formol, é claro –, maquia meu rosto (em vida eu tinha dito que nem morto faria isso, já que é coisa de “fresco”. Me enganei…) e, por fim, põe uma porção de algodão no meu nariz.

Chega a hora do velório. Há mais gente do que eu imaginei, mas não conheço nem a metade das pessoas. Nunca entendi o motivo de gostarem tanto de ver gente morta, será que pensam que vai ter algum lanche depois do enterro?

Minha mulher, segurando meu filho de 1 ano de idade, é a primeira a se aproximar do meu caixão. Sua expressão é triste e há lágrimas em seus olhos, mas o fato de “ouvir” seus pensamentos me faz não sentir tanta pena de sua situação:

“Irresponsável! Com mulher e filho pra sustentar, inventa de dirigir bêbado. Agora morreu e me deixou sem nenhum tostão… Eu devia ter largado ele quando o Tonho me chamou pra casar. Como eu fui burra! Espero que ele ainda me queira”.

E se afastou, chorando mais ainda.

O Tonho era meu melhor amigo, a gente se conhecia desde criança. Assim como eu, ele trabalhava como pedreiro, geralmente fazendo reforma em casas. Aos domingos, quase sempre a gente ia no bar do Pepeu tomar algumas “marvadas” e bater um papo.

Ele era um cara legal, pelo menos parecia ser. Foi ele, por exemplo, que me vendeu o Chevette em que acabei morrendo, a um preço bem abaixo do normal. Na época até suspeitei de que fosse roubado, mas nem me importei.

Agora eu daria qualquer coisa para esganar aquele maldito e a vagabunda da minha mulher. Parece que morrer não é tão bom quanto eu pensei. Saber o que as pessoas pensavam e escondiam de mim é realmente ruim…

O velório continua, com vários desconhecidos passando e me olhando:

“Vixi Maria… Como ele tá pálido!”.

“Será que se eu cutucar o ombro dele ele se mexe?”.

“Tira a mão daí menino! Não pega no morto, isso dá azar!”.

“Tadinho, deve ter doído… Deus tenha piedade da alma dele!”.

“Será que o lanche vai demorar?”

Algum tempo depois, finalmente fecham meu caixão e levam meu corpo para o cemitério. Lentamente me colocam na cova e começam a tapar. Em questão de minutos tudo acaba e sou deixado naquele lugar escuro, solitário, úmido e silencioso…

Quero sair daqui!!!

– Zé? Acorda Zé! – ouço a voz do Tonho me chamando.

– Que foi? – respondo.

– Ufa… Pensei que tu tinha desmaiado! Já tava preocupado por ter que te carregar até em casa.

– Quanto tempo eu fiquei apagado, Tonho? – eu pergunto.

– Acho que uns 10 ou 15 minutos. Eu tinha ido no banheiro e quando voltei tu tava aqui debruçado na mesa…

–Ah, tá… Então foi só um sonho… – eu falo, mais para mim mesmo.

– Que foi rapaz? Tá com uma cara estranha!

Eu olho para ele, pensativo, por alguns segundos. Então tomo a minha decisão: me levanto, inspiro bem forte e grito em direção ao balcão:

– Pepeu, traz mais uma dose da marvada que hoje eu vou beber até cair!

por Guilherme

Pedro, o balde

Pedro era um balde. Há quem diga que não, há quem não diga que não, há quem diga que sim. No fim das contas, Pedro era um balde.

Ele não parecia com um balde por lembrar um. Ele não parecia pelo tamanho ou algo do tipo. Ele era um balde. De ferro, com alça de ferro e capacidade para 20 litros. Odiava quando era cheio até a borda, porque quem o carregasse seguraria pela alça. Era doloroso. Podia-se sentir na feição do pobre Pedro o medo diante de uma torneira de grande vazão; Pedro e lavanderia não combinavam.

Como a maioria, Pedro queria se sentir seguro. E mesmo numa condição física ‘ligeiramente’ diferenciada, ia à procura do que desejava. Certa vez, estudou na escola especial onde cursava a 2ª série média para baldes de ferro II e III sobre oxidação. Nesse dia foi para casa se desviando da água, para não oxidar. Mas como era aluno aplicado, soube utilizar-se de um mecanismo, ao mesmo tempo, protetor e embelezador: tornou-se um balde cromado. O novo sucesso entre a galera.

Mesmo sendo um balde entre tantos humanos, Pedro era bastante sociável. Era cumprimentado por todas as velhinhas que comumente davam-lhe trocados para molhar as plantas. Trabalho que Pedro gostava, pois sempre tinha um dinheirinho para retocar a pintura, além de já ajudar nas despesas da casa. Conhecia os moleques jogadores de bola da rua: lavava os carros dos pais deles. Mas como nada é perfeito, cultivava, a contragosto, inimigos. O balde de plástico tinha inveja por Pedro ser mais brilhante, asseado e inteligente. Algumas bacias também não simpatizavam com o balde, talvez por não terem a mesma capacidade. Quanto à mangueira? A mangueira nem merece ser mencionada, ela é pura enrolação. Já a melhor amiga de Pedro era a torneira, que detinha o poder de controlar a água; e ,por amizade, diminuía o fluxo quando Pedro estava um pouco oxidado, evitando que o amigo fizesse feio na rua. Realmente uma grande amiga.

Pode-se pensar que sendo um balde, ele tenha sérias limitações. Engano. Pedro aprendeu a contornar sua situação de aparente desvantagem física. Ganhou, com o tempo, bastante impulsão, alargou sua alça para pular corda (ou pular alça, como ela dizia), o que fortaleceu sua estrutura. Especializou-se em trabalhar com água (sempre pela metade, não gostava de dores na alça), na função de aprendiz, lógico, pois ainda era menor de idade; mas dizia não gostar de trabalhar em construções, pelo medo de cair tinta ou secar cimento.

Odiava quando diziam “não-sei-quem não é pouca merda não, é um balde cheio” ou quando usavam um tal verbo “baldear” no sentido de vomitar. Nesses momentos se sentia um depósito de excrementos.

Tudo estava bem na pacata vida de Pedro, até que uma mulher entrou em seu cotidiano. Envolveram-se. Um estranho par. Noivaram com anel de diamante e tudo. Mas para acabar com a época de alegria, Pedro descobriu estar sendo traído por sua noiva, em quem ele tanto confiava. Foi sua primeira e última desilusão amorosa. Pedro se enforcou com a própria alça.

Na lápide de Pedro dizia: “Nesta vida foi balde, mas não apenas isso. Foi um balde cheio”.

por João de Brito

Nome: João Paulo
Onde: São Luís - MA

Pseudo-escritor frustrado.


Orkut
Last.fm
E-mail
---

Nome: Nilson
Onde: São Luís - MA

Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


Orkut
E-mail
---

Nome: João de Brito
Onde: São Luís - MA

Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


Orkut
E-mail
---

Nome: Guilherme
Onde: São Luís - MA

Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


Blog
E-mail

a