Holometabolismo

Vejo o mudo pelos cantos dos olhos, sempre fui assim. Em vez de encarar as pessoas que vêm em minha direção, as vejo no insignificante instante em que passam por mim. Enquanto caminho, minha atenção se volta mais para o que está a meu lado do que a minha frente.

Inútil loucura. Já perdi a conta de quantos amores e histórias fantásticas criei, envolvendo os personagens dos limites de meu horizonte sem nitidez. Finjo conversar assuntos intermináveis, desde os triviais aos de grande importância, dos racionais aos da mais profunda emoção. Mas essas fugas tão surreais são mais frágeis que a mais delicada porcelana. Basta um ruído dissonante ou outra interrupção do “mundo externo” para toda a ilusão se desfazer.

 

Neste momento me encontro sentado em um ônibus quase completamente vazio, ao lado de uma das janelas. Árvores e prédios, carros e motos; vejo-os passando rapidamente a meu lado, enquanto mergulho em pensamentos que me levam a lugares infinitamente distantes dali.

Quase não percebo a aproximação de uma jovem e bela mulher. Se não fosse seu perfume de fragrância doce e única, talvez nem a notasse. Ela pára ao lado do banco em que estou e olha ao redor, percebendo as várias opções onde sentar-se, e em seguida fixa sua atenção em mim.

Seus olhos cor de mel parecem invadir minha mente, minha alma, meu mundo. Sinto-me nu diante do poder que eles exercem sobre mim. Tento desviar meu olhar, em vão esforço, e sinto meus batimentos cardíacos acelerarem. Nunca antes alguém foi tão longe pelas estradas do meu ser, muito menos uma pessoa desconhecida.

Parecendo contente ao perceber meu desconcerto, ela sorri meigamente e senta-se ao meu lado. Seus olhos já não me fitam, porém ainda sinto seu poder. Não tenho defesa contra aquela linda e cruel mulher.

– De que adianta viver assim, escondendo-se nesse casulo invisível que você mesmo criou? – ela repentinamente fala – Há tempos sua ecdise deveria ter ocorrido. Mais cedo ou mais tarde você terá que aceitar este mundo como o único, é inevitável.

– Como posso aceitar algo repleto de máculas como meu mundo? – surpreendo-me com minha “pergunta-reposta” – Essa sujeira egoísta chamada ser humano que só sabe destruir e corromper tudo o que toca não pode ser a raça mais evoluída deste planeta. Até os vírus, creio, são mais benevolentes que o homem.

– Então você não se considera um ser humano? Você também não mancha a bela obra-prima que é a natureza? Você também não é uma sujeira pseudo-evoluída?

– Claro que sou, e este é o motivo para eu permanecer em meu casulo. Aqui estou protegido e confortável, nada pode me atingir. Aqui eu que dito as regras, e as conseqüências de minhas ações só dizem respeito a mim e a mais ninguém. Aqui não sou julgado ou condenado; não sou vilão ou herói. Sou apenas eu.

Ela parece vacilar ao fim do meu comentário misantrópico. Seus olhos se fecham e sua cabeça pende tristemente para baixo. Minutos se passam em completo silêncio, tempo esse que me deixa aflito.

– Desculpe se a magoei – eu digo suavemente.

– Não se preocupe, não me magoou – ela responde erguendo seu rosto e me encarando com os olhos a marejar lágrimas, apesar de um lindo sorriso estampar em seu rosto – Apenas me entristeci por saber de sua solidão. Você talvez não perceba, ou provavelmente finge não perceber, mas seu mundo está se tornando cada vez mais frio e escuro. Se continuar assim, todo o pouco interesse pela vida que você ainda possui minguará até desaparecer, e o único caminho restante será o suicídio.

– Você pode até se sentir seguro em seu mundo e ter seus motivos para permanecer nele, mas há algo que nunca conseguirá alcançar se decidir fazer isso: o amor. Mesmo neste mundo em que a crueldade e o egoísmo começam a imperar, sempre há resquícios de amor em alguma parte, e por ele vale a pena permanecer vivo e no “mundo real”, por maior que seja o sofrimento.

– A escolha é sua. Com certeza não é fácil, mas infelizmente é necessária. Pense bem.

Dito isto ela beija minha face e se levanta. Faz sinal para o ônibus parar e desce sem sequer olhar para trás.

Permaneço calado e pensativo o resto da viagem, ainda vendo o mundo pelos cantos dos olhos. Mas sinto que algo dentro de mim está mudando, algo que me faz involuntariamente olhar para frente.

O local em meu rosto onde ela havia beijado parece quente, de um calor tão intenso que alcança até o lugar mais profundo e frio de meu mundo.

Chego ao ponto final. Desço do ônibus e olho para o céu. Minha escolha está feita, a metamorfose enfim acabou.

por Guilherme
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5 Responses to “Holometabolismo”


  1. 1 João Neto 10 agosto, 2007 às 10:32 pm

    Gui, tu é meu escritor preferido.
    Adorei te “ler” em prosa. 🙂

  2. 2 João Paulo 11 agosto, 2007 às 12:01 am

    Lindo! Simplismente lindo!
    Fico até com vergonha de postar meus textos medíocres aqui depois disso.

  3. 3 Nilson 11 agosto, 2007 às 12:38 am

    muito bom, so no final achei um pouco confuso, as tres ultimas falas e apenas da moca?? mas de resto muito bom, me indentifico tb com os olhares de canto!!

  4. 4 Guilherme Gurgel 11 agosto, 2007 às 12:53 pm

    Eu fiquei na dúvida de como escrever essas falas em seqüência e fazer o leitor perceber que eram todas da mulher. Acho que ficou meio confuso mesmo… Alguém tem alguma idéia de como sanar isso? Ou eu deixo como está?

  5. 5 Thiago Maldição 11 agosto, 2007 às 2:07 pm

    Putz… Excelente! Virou meu texto preferido!


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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