Arquivo para agosto \29\UTC 2007

Vê se

Vê se não muda meu dia
Deixa de mão meu cotidiano
Larga o meu fazer de sempre

Quebra ela, a rotina
Só de vez em quando
De vez em quando me leva no planetário
Me leva no cinema, na pracinha dos namorados

Mas vê se não mexe muito no meu dia
Que eu quero ele pra ler, escrever
Pra ser forçado a viver.

por João de Brito

Pois é, crônica

Agora quem fala não é nenhuma mulher louca, menina solitária; nenhum psicopata homicida ou apaixonado. Quem fala é o que pensa por eles e neles. Admite então uma crônica, que é, em meu ver, um balanço de acontecidos. Faço, pois, o meu balanço.

Explicando melhor: quem escreve, mesmo que por métodos diferentes, utiliza-se de meios comuns de montagem do texto. Imagino certos detalhes dos personagens, uma ou outra estruturação física, além do fim, que é onde pretendo chegar. O papel do escritor é como de um cineasta: imagina-se, põe-se em prática, então vem a edição. Este é o ponto, a edição. A maioria dos pensamentos é descartada durante o processo, esquecida depois pelo escritor e nem sequer mencionados ao leitor. A edição esconde segredos, idéias que teriam ficado excelentes ou desastrosas, vergonha, medo de reações. Há muito mais num filme ou texto do que se possa pensar. Quem sabe eu conte algum “lado B” de textos meus.

Escrever confunde a mente, embaralha os pensamentos. A idéia de balanço é exatamente organizar a cabeça, colocar cada coisa em sua gaveta e jogar fora o que já não tem mais utilidade. Pretendia e pretendo eu, com uma crônica, dar minhas razões, motivos, fazer comentários. Afinal, textos em geral libertam a imaginação, mas limitam o escrever; já este formato tem um agradável tom de liberdade, que não usarei em demasia para evitar desgaste e/ou vício numa relativa liberdade.

Estou agora como uma loja em renovação. A diferença é que os meus produtos literários serão mostrados. As lojas em balanço fecham-se. Deixando de enrolação, a explicação: meus planos antes e depois de um texto geralmente são distintos; há modificações imprescindíveis, recalques, erros (propositais ou não), esquecimentos e há o acaso.

Foi por acaso que o gosto por pés de Júlia combinou com as passadas do rapaz sem nome. E me refiro a total acaso. Não era intenção minha o final escrito. Comecei o texto “Júlia” tentando escrever algo que entretesse e literalmente “enchesse lingüiça”; para isso vali-me de um sonho no qual eu andava numa rua do centro histórico (sonho, aliás, que ajudou bastante nas descrições presentes no texto). Fui então permeando descrições e dando prosseguimento ao acontecido, até que chegou o momento de apresentar a fascinante e enigmática Júlia. Pensei precisar transformá-la em algo diferente das meninas bonitas comuns, algo estranho, mas ao mesmo tempo atrativo aos mais curiosos; daí pensei no gosto por pés de num poder de crítica a pés feios. Acontece que, de primeira, não percebi uma possível relação “passo-pé” (nem de segunda). Continuei a escrever, passei pelo monólogo e chegando ao clímax deu-se o estalo. Meu final estranho e romântico estava formado. Os pés foram o “mote” de uma possível união, não explicitada no texto. Pronto, contado um dos segredos da confecção de “Júlia”. Há outros.

Presto contas também aos alopatas. Produtos de um acaso menor, mas acaso. Tanto que segredos de “Alopatia” não encheriam satisfatoriamente um parágrafo. Alguns: há certas palavras bem incomuns no texto, e pelo menos a maioria aprendi a usar no momento de escrever o tal texto. Isso porque tenho sempre um dicionário à mesa de estudos. Dele utilizei-me para conseguir o título: ao fim do texto, depois de inserir minha carga moderada de suspense e deixar perguntas sem respostas, ainda faltava o título; pois aconteceu que num pensamento ingênuo tomei o dicionário à mão e abri numa página qualquer. Lá estava “alopatia”, a primeira palavra que li. Encaixou-se.

E como é hora de metalinguagem: venho tentando escrever de modo a possibilitar uma “moral da história”, ou algo do tipo. Mas admito que é por medo de rejeição. O que pensa quem lê um texto a terminar sem “mensagem”? Tenho diálogos e prosas “sem mensagem” explícita ou comum. Não que sejam menos interessantes, mas ainda não vejo chance para expor um deles. Mas mostrarei. O que é intimista não é, exatamente, apreciado ou entendido. Afinal um réquiem toca as pessoas de maneiras diferentes. O acre não amarga na boca de todos.

Mas pensando bem e contradizendo (ou não) o dito no parágrafo de cima, vai uma citação retirada de “Como me tornei estúpido” de Martin Page:

“As pessoas ligeiras, superficiais, os espíritos presunçosos e entusiastas querem uma conclusão em todas as coisas;
Eles buscam a finalidade da vida e a dimensão do infinito.
Eles tomam na mão, na sua pobre mãozinha, um punhado de areia e dizem ao oceano:
‘Eu vou contar os grãos das tuas margens’.
Mas como os grãos lhes correm por e
ntre os dedos e como o cálculo é longo, eles batem os pés no chão e choram, eles choram.
Você sabe o que há para fazer na margem do rio?
Ajoelhar-se ou passear. Passeie!”

E agora uma citação final, de uma conversa ao telefone com nosso ilustre escritor e meu amiguinho querido Guilherme. Falávamos sobre não gostar de postar crônicas por serem invariavelmente pessoais:

“E quem se importa com o que a gente pensa?”

por João de Brito

Com pé, com cabeça

Lá no alto a perfeição
Não vende, não compra, não sente
Só rende

No brilho ouro
Nos fios tesouro
De pele pétala
Do fino choro

É não ser
Nem saber
Ainda assim

Tal perfeito
Imperfeito
Nunca teve onde existir

por João Paulo

Holometabolismo

Vejo o mudo pelos cantos dos olhos, sempre fui assim. Em vez de encarar as pessoas que vêm em minha direção, as vejo no insignificante instante em que passam por mim. Enquanto caminho, minha atenção se volta mais para o que está a meu lado do que a minha frente.

Inútil loucura. Já perdi a conta de quantos amores e histórias fantásticas criei, envolvendo os personagens dos limites de meu horizonte sem nitidez. Finjo conversar assuntos intermináveis, desde os triviais aos de grande importância, dos racionais aos da mais profunda emoção. Mas essas fugas tão surreais são mais frágeis que a mais delicada porcelana. Basta um ruído dissonante ou outra interrupção do “mundo externo” para toda a ilusão se desfazer.

 

Neste momento me encontro sentado em um ônibus quase completamente vazio, ao lado de uma das janelas. Árvores e prédios, carros e motos; vejo-os passando rapidamente a meu lado, enquanto mergulho em pensamentos que me levam a lugares infinitamente distantes dali.

Quase não percebo a aproximação de uma jovem e bela mulher. Se não fosse seu perfume de fragrância doce e única, talvez nem a notasse. Ela pára ao lado do banco em que estou e olha ao redor, percebendo as várias opções onde sentar-se, e em seguida fixa sua atenção em mim.

Seus olhos cor de mel parecem invadir minha mente, minha alma, meu mundo. Sinto-me nu diante do poder que eles exercem sobre mim. Tento desviar meu olhar, em vão esforço, e sinto meus batimentos cardíacos acelerarem. Nunca antes alguém foi tão longe pelas estradas do meu ser, muito menos uma pessoa desconhecida.

Parecendo contente ao perceber meu desconcerto, ela sorri meigamente e senta-se ao meu lado. Seus olhos já não me fitam, porém ainda sinto seu poder. Não tenho defesa contra aquela linda e cruel mulher.

– De que adianta viver assim, escondendo-se nesse casulo invisível que você mesmo criou? – ela repentinamente fala – Há tempos sua ecdise deveria ter ocorrido. Mais cedo ou mais tarde você terá que aceitar este mundo como o único, é inevitável.

– Como posso aceitar algo repleto de máculas como meu mundo? – surpreendo-me com minha “pergunta-reposta” – Essa sujeira egoísta chamada ser humano que só sabe destruir e corromper tudo o que toca não pode ser a raça mais evoluída deste planeta. Até os vírus, creio, são mais benevolentes que o homem.

– Então você não se considera um ser humano? Você também não mancha a bela obra-prima que é a natureza? Você também não é uma sujeira pseudo-evoluída?

– Claro que sou, e este é o motivo para eu permanecer em meu casulo. Aqui estou protegido e confortável, nada pode me atingir. Aqui eu que dito as regras, e as conseqüências de minhas ações só dizem respeito a mim e a mais ninguém. Aqui não sou julgado ou condenado; não sou vilão ou herói. Sou apenas eu.

Ela parece vacilar ao fim do meu comentário misantrópico. Seus olhos se fecham e sua cabeça pende tristemente para baixo. Minutos se passam em completo silêncio, tempo esse que me deixa aflito.

– Desculpe se a magoei – eu digo suavemente.

– Não se preocupe, não me magoou – ela responde erguendo seu rosto e me encarando com os olhos a marejar lágrimas, apesar de um lindo sorriso estampar em seu rosto – Apenas me entristeci por saber de sua solidão. Você talvez não perceba, ou provavelmente finge não perceber, mas seu mundo está se tornando cada vez mais frio e escuro. Se continuar assim, todo o pouco interesse pela vida que você ainda possui minguará até desaparecer, e o único caminho restante será o suicídio.

– Você pode até se sentir seguro em seu mundo e ter seus motivos para permanecer nele, mas há algo que nunca conseguirá alcançar se decidir fazer isso: o amor. Mesmo neste mundo em que a crueldade e o egoísmo começam a imperar, sempre há resquícios de amor em alguma parte, e por ele vale a pena permanecer vivo e no “mundo real”, por maior que seja o sofrimento.

– A escolha é sua. Com certeza não é fácil, mas infelizmente é necessária. Pense bem.

Dito isto ela beija minha face e se levanta. Faz sinal para o ônibus parar e desce sem sequer olhar para trás.

Permaneço calado e pensativo o resto da viagem, ainda vendo o mundo pelos cantos dos olhos. Mas sinto que algo dentro de mim está mudando, algo que me faz involuntariamente olhar para frente.

O local em meu rosto onde ela havia beijado parece quente, de um calor tão intenso que alcança até o lugar mais profundo e frio de meu mundo.

Chego ao ponto final. Desço do ônibus e olho para o céu. Minha escolha está feita, a metamorfose enfim acabou.

por Guilherme

Júlia

Tenho em mim os vários tipos de andar. Geralmente ritmado, hoje a pressa contida o ditava. Decerto não tenho visão panorâmica de mim mesmo, talvez por isso conheça melhor a aparência alheia do que a minha. Não me vejo de todos os ângulos, não me vejo andando, só suponho, imagino. Supunha então estar a “meio galope”, com companhia ao lado e na mesma quase pressa.

Íamos a lugares diferentes. Tanto que num cruzamento de rua dobrei na esquina de uma casa azul porta-e-janela. Num aceno rápido a despedida. E o caminho se abria à frente, mais ao meu encontro do que eu ao dele, pois a pressa já não era a mesma. Segui com as mãos nos bolsos, feição de inocência, ou mesmo curiosidade, olhando as casas e, às vezes, céu e pedestres, cada um em seu plano.

Com o avanço dos passos fui aproveitando as vitrines e portas de vidro para testar novas perspectivas. Até que o meu “fim da linha” enfim chegasse ainda tropecei algumas vezes nas calçadas desgastadas, acenei à distância para dois conhecidos indesejáveis, recebi panfletos de supermercado e propostas de empréstimo rápido e descomplicado com desconto em folha.

Depois de algumas quadras virei à esquerda em direção a uma vistosa maçaneta de porta de ferro. Pois neste abrir de porta vislumbrei uma sala grande, com atendente uniformizada e computador, além de cadeiras visivelmente bem projetadas: de desenho levemente curvo, encostos de várias cores (nenhuma discreta); os braços eram metálicos e os assentos, bem estofados. Algumas pessoas já lá figuravam, todas de caras iguais: caras de nada.

“Júlia?”, assustei-me ao reconhecer uma das caras de nada. Não sei se fui percebido.

Júlia era um tipo excêntrico (e linda). Mais bem modelada que as cadeiras, mesmo não tendo sido pensada por arquitetos. Todos os seus relacionamentos foram efêmeros, contrastando com os amores, poucos e duradouros. Saía sempre com traumas dos poucos namoricos e aos poucos foi perdendo a capacidade de se encantar, mas não a vontade. Por conseqüência criou um muro em volta de si: “Não ultrapasse”.

A garota era realmente um tanto diferente. Tinha tamanho fascínio por pés ao ponto de criticar os que via passando à rua: “Os piores são os que têm o segundo dedo de tamanho quase duas vezes maior que o primeiro”, classificava. Também gostava de saias, mas camisas eram a preferência. Não tão pequenas, pois era uma militante contra a vulgaridade.

Tinha opiniões fortes, era centrada e geniosa. Seu humor, por demais incompreendido por tender ao humor negro, por vezes escatológico. Parecia fisicamente com o pai, e da mãe parecia ter herdado todo o restante de seu ser. Manias as tinha aos montes, mas nada de mimada, pelo contrário.

Sem saber ao certo ter sido notado ou não, sentei-me num local dentro do campo de visão da garota e esperei que ela viesse ter comigo. A espera curta trouxe Júlia ao assento de encosto laranja logo à minha direita. Seu rosto não era mais de nada; assustou-se num susto bom, como eu ao vê-la. E já devidamente recostada em sua cadeira, começa a falar, logo após um cumprimento nada contido.

“Pensei que não fosse vir, por isso minha surpresa”.

“Até pensei na possibilidade, ainda mais que este não é um lugar propriamente de conversas. E você não me disse o motivo do chamado”.

Inicia-se então um monólogo com fim.

“Só sabe quem vive, o que passo não é assim facilmente suportável. Pode até ser um pouco de drama, mas o que posso fazer? Chamei você por sempre me entender e não recriminar. Certo: não me sinto mais a mesma, como se o que sinto e penso tivesse sido petrificado. Perdi o gosto da descoberta, da procura; fiz um mundinho para lá estagnar. Tudo culpa das decepções que eu não soube superar; quando vi, estava assim. Você não faz idéia do que é ter medo de ter medo. Você não imagina o pavor que tenho de me lançar numa nova ‘aventura’. Ou talvez imagine. São coisas da mente, pequenos traumas acumulados. Para falar a verdade já estive pior, mas não tinha consciência. Tanto estou melhor que com você falo abertamente. Quero um novo início, reiniciar-me. Mostrar que essa barreira à minha volta eu destruo, mas preciso de confiança. Esse sentimento de incompreensão sei que logo passa e não sou apenas eu a senti-lo. Não estou mal nem bem, mas queria viver”.

Percebi não precisar dar nenhuma palavra, estava implícita minha resposta. Júlia tinha vontade de falar e o fez; só queria ser ouvida. Ao fim sua cabeça encontrou meu ombro. Ali estavam o rapaz do passo e a menina dos pés.

Faltava a ela inocência para fascinar-se. O mundo para ela era redondo e achatado nos pólos. Enfim, eu sou o rapaz do passo , ela a menina dos pés.

por João de Brito

Reflexões numa tarde monótona

Tédio
à sombra de uma árvore
numa tarde quente
e lenta.

O tempo parece não passar,
os segundos são intermináveis.
As árvores balançam preguiçosas,
conforme o vento as contorna.

Tédio
num lugar esquecido pelo mundo
e por Deus.
Sinto-me esquecido.

Vida insignificante e sem sentido
que parece nunca acabar.
“Por que existo?”, nem adianta perguntar.
Não há resposta.

Tédio
apenas permaneço
nessa infelicidade irritante
que infelizmente me conforta.

Odeio ser eu
e não poder ser.
Odeio tudo
e odeio odiar.

por Guilherme

Transições

De nada a tudo,
de calmaria a explosão.
Espíritos guerreiam
dentro de mim.

Desejo amar.
Desejo matar.
Desejo morrer.
Desejo não estar…

aqui,
no céu ou no inferno,
em todos os lugares,
em lugar nenhum.

Livrar-me de minhas vontades,
de meus devaneios,
de minhas discrepâncias.

Fazer tudo para não ser,
tampouco existir,
neste universo inútil
em que inutilmente vivo.

por Guilherme


Nome: João Paulo
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Pseudo-escritor frustrado.


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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Nome: Guilherme
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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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