Tenho em mim os vários tipos de andar. Geralmente ritmado, hoje a pressa contida o ditava. Decerto não tenho visão panorâmica de mim mesmo, talvez por isso conheça melhor a aparência alheia do que a minha. Não me vejo de todos os ângulos, não me vejo andando, só suponho, imagino. Supunha então estar a “meio galope”, com companhia ao lado e na mesma quase pressa.
Íamos a lugares diferentes. Tanto que num cruzamento de rua dobrei na esquina de uma casa azul porta-e-janela. Num aceno rápido a despedida. E o caminho se abria à frente, mais ao meu encontro do que eu ao dele, pois a pressa já não era a mesma. Segui com as mãos nos bolsos, feição de inocência, ou mesmo curiosidade, olhando as casas e, às vezes, céu e pedestres, cada um em seu plano.
Com o avanço dos passos fui aproveitando as vitrines e portas de vidro para testar novas perspectivas. Até que o meu “fim da linha” enfim chegasse ainda tropecei algumas vezes nas calçadas desgastadas, acenei à distância para dois conhecidos indesejáveis, recebi panfletos de supermercado e propostas de empréstimo rápido e descomplicado com desconto em folha.
Depois de algumas quadras virei à esquerda em direção a uma vistosa maçaneta de porta de ferro. Pois neste abrir de porta vislumbrei uma sala grande, com atendente uniformizada e computador, além de cadeiras visivelmente bem projetadas: de desenho levemente curvo, encostos de várias cores (nenhuma discreta); os braços eram metálicos e os assentos, bem estofados. Algumas pessoas já lá figuravam, todas de caras iguais: caras de nada.
“Júlia?”, assustei-me ao reconhecer uma das caras de nada. Não sei se fui percebido.
Júlia era um tipo excêntrico (e linda). Mais bem modelada que as cadeiras, mesmo não tendo sido pensada por arquitetos. Todos os seus relacionamentos foram efêmeros, contrastando com os amores, poucos e duradouros. Saía sempre com traumas dos poucos namoricos e aos poucos foi perdendo a capacidade de se encantar, mas não a vontade. Por conseqüência criou um muro em volta de si: “Não ultrapasse”.
A garota era realmente um tanto diferente. Tinha tamanho fascínio por pés ao ponto de criticar os que via passando à rua: “Os piores são os que têm o segundo dedo de tamanho quase duas vezes maior que o primeiro”, classificava. Também gostava de saias, mas camisas eram a preferência. Não tão pequenas, pois era uma militante contra a vulgaridade.
Tinha opiniões fortes, era centrada e geniosa. Seu humor, por demais incompreendido por tender ao humor negro, por vezes escatológico. Parecia fisicamente com o pai, e da mãe parecia ter herdado todo o restante de seu ser. Manias as tinha aos montes, mas nada de mimada, pelo contrário.
Sem saber ao certo ter sido notado ou não, sentei-me num local dentro do campo de visão da garota e esperei que ela viesse ter comigo. A espera curta trouxe Júlia ao assento de encosto laranja logo à minha direita. Seu rosto não era mais de nada; assustou-se num susto bom, como eu ao vê-la. E já devidamente recostada em sua cadeira, começa a falar, logo após um cumprimento nada contido.
“Pensei que não fosse vir, por isso minha surpresa”.
“Até pensei na possibilidade, ainda mais que este não é um lugar propriamente de conversas. E você não me disse o motivo do chamado”.
Inicia-se então um monólogo com fim.
“Só sabe quem vive, o que passo não é assim facilmente suportável. Pode até ser um pouco de drama, mas o que posso fazer? Chamei você por sempre me entender e não recriminar. Certo: não me sinto mais a mesma, como se o que sinto e penso tivesse sido petrificado. Perdi o gosto da descoberta, da procura; fiz um mundinho para lá estagnar. Tudo culpa das decepções que eu não soube superar; quando vi, estava assim. Você não faz idéia do que é ter medo de ter medo. Você não imagina o pavor que tenho de me lançar numa nova ‘aventura’. Ou talvez imagine. São coisas da mente, pequenos traumas acumulados. Para falar a verdade já estive pior, mas não tinha consciência. Tanto estou melhor que com você falo abertamente. Quero um novo início, reiniciar-me. Mostrar que essa barreira à minha volta eu destruo, mas preciso de confiança. Esse sentimento de incompreensão sei que logo passa e não sou apenas eu a senti-lo. Não estou mal nem bem, mas queria viver”.
Percebi não precisar dar nenhuma palavra, estava implícita minha resposta. Júlia tinha vontade de falar e o fez; só queria ser ouvida. Ao fim sua cabeça encontrou meu ombro. Ali estavam o rapaz do passo e a menina dos pés.
Faltava a ela inocência para fascinar-se. O mundo para ela era redondo e achatado nos pólos. Enfim, eu sou o rapaz do passo , ela a menina dos pés.
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