Excursão

Ontem comi algo que me fez mal
Acordei de noite vomitando
Saiu tudo que eu não queria mais

Veio um pedaço de sensatez e um de inquietação
Veio o tormento da perda e uma coisa vermelha
Carne, arroz, feijão, umas folhas

Quando na garganta senti nostalgia e cólera
Fiz força pra engolir

por João de Brito

Enche-me os olhos

Tive uma infância bem completa, feliz, permeada pela inocência que deve haver quando se é pequeno e mais ingênuo. Não fui sapeca, arteiro, traquina (fui chorão, mas esse é outro assunto); também não tive brincadeiras de interior, fui guri urbano. Em compensação fui fantasioso, imaginativo, um guri de 1,10m pensando que pensava. O bairro era uma província dentro de outra; a casa, numa avenida (lembro até hoje do endereço: avenida 1, quadra 17, casa 129, Jardim América). Dei azar de não ter amigos ao redor de casa, cercada por comércios, mas satisfiz-me na escolinha do bairro, onde pude exercer meu direito de ser criança com toda a energia disponível.

Os prantos do primeiro dia de aula deram lugar à pequenas amizades, amiguinhos de brincar no recreio, de se divertir com massa de modelar, de dividir um pouquinho do lanche com o outro. Além de já comentar sobre as menininhas mais bonitas no esplendor dos 6 anos de idade (a mais bonita era a Daniara, loirinha; a minha namoradinha era a Aline, “amor infantil” correspondido). Comentários sem maldade, apenas uma leve iniciação no bom gosto.

A escola à época era pequena, a entrada suportava mal uma bicicleta. Instalações modestas, um computador para toda a escola, mas tudo superado por um perceptível compromisso em não deixar para trás os futuros jovens. Realmente foi aquela escolinha a responsável pela minha “infância social”.

Foi tão bom ser criança. Sem preocupações, sem grandes frustrações, sem percepção da horrenda realidade. Foi mesmo muito bom: brincar no parquinho da escola era o ponto alto do dia. No chão era areia e umas pedrinhas e olhando para cima, os baixos brinquedos que pareciam altos. Nesse lugar de escorregadores, escadinhas, crianças tropeçando e levantando, balanços, eu perdia minha pouca noção do mundo. Eu ainda não sabia, mas esse “desligar-se” do mundo se tornaria meu maior e mais querido (porém longínquo) prazer. Essas brincadeiras tão bobas em meio a brinquedos simples e enferrujados são minhas “lembranças de segurança”. Reminiscências da boa época de ingenuidade.

Mas agora o que eu sou? Não faço idéia. Mas sei que a boa época passou quando cresci. Fui arremessado nesse mundo maldito. Mudei, mudei muito. Não tenho mais a ternura de quando preenchia com capricho minhas caligrafias; hoje escrevo com raiva, com angústia. A culpa não sei se é minha que resolvi pensar. Talvez pensar tenha sido a decisão menos sensata da minha vida. Depois de crescidinho meu sonho é entrar num transe-êxtase dos alienados. Queria saber como se sentem os idiotas que Lula arrebanha/engana. Gostaria também de ser um dos retardados que vão anualmente aos Marafolias e similares. Mas fui teimoso, quis ir contra a maré, quis adquirir cultura, ouvir boa música. Deu no que deu. Vou vivendo as vezes angustiado, puto da vida, perplexo enquanto os idiotizados vestidos com abadás exibem sorrisos de satisfação e corpos esculpidos nos “centros oficiais de idiotização”, também chamados academias.

“Que besteira se lamentar”. Discordo! Não é lamento. É um pedido, um encarecido pedido aos que pensam muito mais que eu. Desejo duas coisas, mas se for difícil, qualquer uma das duas já serve e muito. Quer saber? Falo depois o que quero, porque fica legal para um desfecho.

Vejo-me neurótico daqui a algum tempo, preciso me acalmar. Mas acalmar-se é aceitar imposição e eu não aceito (facilmente). Talvez a loucura, neurose ou a senilidade sejam uma honraria dedicada aos que já pensaram demais. Não quero durar muito tempo, nem pensar em virar “Dercy”. Não quero dar excessivo trabalho para mim nem para os outros, mas caso eu viva mais tempo que a média, quero virar um louco, gagá e quem sabe um filósofo. A insanidade é mais normal que a falsa normalidade apregoada.

Como era bom ser criança, não ter dúvidas existenciais nem preocupações. Por que ninguém avisou antes que ia ser assim? Deve ser um revanchismo acumulado. Por fim, meu dois desejos: você aí que pensa mais que eu, consiga, por favor, um jeito de eu viver sem cérebro, transforme-me num acéfalo, a exemplo dos seguidores de Lula e dos foliões. Não falo de deixar de usar o cérebro, mas sim de não ter essa coisa cinzenta que nos faz um mau tão bom e um bem tão ruim. Espera, espera, espera! Cancela esse e ouve o próximo. Vê se consegue fazer pra mim uma máquina do tempo personalizada e me envia para 1995, quando eu ainda era criança, feliz da vida, sorridente e tranquilo; nos tempos que meu maior sonho ou realização não era um complicado “transe-êxtase”, mas um simples recreio em meio a crianças iguais a mim, num parquinho surrado, mas acolhedor, com chão de terra e brinquedos enferrujados. Meus companheiros de uma infância perdida.

por João de Brito

É melhor ser direto

Narciso era um “auto-fanático”, apaixonado por ele mesmo. Narciso é o melhor exemplo de narcisista (lógico!). Em bom (ou mau) linguajar, era a fim de si mesmo. Decerto um vaidoso, arrumava-se para um culto próprio, para se ver refletido nas águas, para contemplar a si próprio num ritual de “auto-tesão”.

Não tenho nomes, mas há loucos por pés. Certamente não sou um deles; pés fedem, por isso, ou por motivos mais nobres, a evolução manteve-os longe do nariz. Adoradores de pés são insanos, gostam de chupar dedos alheios, dedões gordos, dedões magros, com unhas quebradas, encravadas, pés engordurados, amarelados pela falta de higiene; acometidos por pé-de-atleta, frieira. Lambem solas, até saltos. Um estranho gosto (de chão).

Há os espremedores de espinha, irmãos dos engolidores de catarro e meleca. Não podem ver uma protuberância que já empunham os dedos em posição de ataque. Nem sempre as investidas vêm com aviso prévio para os atacados. É um prazer, um êxtase, ver o purulento líquido escorrendo ou voando; dá até um gosto inesperado de “quero mais”.

“Cada louco com sua mania” e “gosto é que nem cu” são muito clichês. No caso de vontade louca é melhor ser direto: “Quero lamber teu ouvido!”

por João de Brito

Pedro, o balde

Pedro era um balde. Há quem diga que não, há quem não diga que não, há quem diga que sim. No fim das contas, Pedro era um balde.

Ele não parecia com um balde por lembrar um. Ele não parecia pelo tamanho ou algo do tipo. Ele era um balde. De ferro, com alça de ferro e capacidade para 20 litros. Odiava quando era cheio até a borda, porque quem o carregasse seguraria pela alça. Era doloroso. Podia-se sentir na feição do pobre Pedro o medo diante de uma torneira de grande vazão; Pedro e lavanderia não combinavam.

Como a maioria, Pedro queria se sentir seguro. E mesmo numa condição física ‘ligeiramente’ diferenciada, ia à procura do que desejava. Certa vez, estudou na escola especial onde cursava a 2ª série média para baldes de ferro II e III sobre oxidação. Nesse dia foi para casa se desviando da água, para não oxidar. Mas como era aluno aplicado, soube utilizar-se de um mecanismo, ao mesmo tempo, protetor e embelezador: tornou-se um balde cromado. O novo sucesso entre a galera.

Mesmo sendo um balde entre tantos humanos, Pedro era bastante sociável. Era cumprimentado por todas as velhinhas que comumente davam-lhe trocados para molhar as plantas. Trabalho que Pedro gostava, pois sempre tinha um dinheirinho para retocar a pintura, além de já ajudar nas despesas da casa. Conhecia os moleques jogadores de bola da rua: lavava os carros dos pais deles. Mas como nada é perfeito, cultivava, a contragosto, inimigos. O balde de plástico tinha inveja por Pedro ser mais brilhante, asseado e inteligente. Algumas bacias também não simpatizavam com o balde, talvez por não terem a mesma capacidade. Quanto à mangueira? A mangueira nem merece ser mencionada, ela é pura enrolação. Já a melhor amiga de Pedro era a torneira, que detinha o poder de controlar a água; e ,por amizade, diminuía o fluxo quando Pedro estava um pouco oxidado, evitando que o amigo fizesse feio na rua. Realmente uma grande amiga.

Pode-se pensar que sendo um balde, ele tenha sérias limitações. Engano. Pedro aprendeu a contornar sua situação de aparente desvantagem física. Ganhou, com o tempo, bastante impulsão, alargou sua alça para pular corda (ou pular alça, como ela dizia), o que fortaleceu sua estrutura. Especializou-se em trabalhar com água (sempre pela metade, não gostava de dores na alça), na função de aprendiz, lógico, pois ainda era menor de idade; mas dizia não gostar de trabalhar em construções, pelo medo de cair tinta ou secar cimento.

Odiava quando diziam “não-sei-quem não é pouca merda não, é um balde cheio” ou quando usavam um tal verbo “baldear” no sentido de vomitar. Nesses momentos se sentia um depósito de excrementos.

Tudo estava bem na pacata vida de Pedro, até que uma mulher entrou em seu cotidiano. Envolveram-se. Um estranho par. Noivaram com anel de diamante e tudo. Mas para acabar com a época de alegria, Pedro descobriu estar sendo traído por sua noiva, em quem ele tanto confiava. Foi sua primeira e última desilusão amorosa. Pedro se enforcou com a própria alça.

Na lápide de Pedro dizia: “Nesta vida foi balde, mas não apenas isso. Foi um balde cheio”.

por João de Brito

Vê se

Vê se não muda meu dia
Deixa de mão meu cotidiano
Larga o meu fazer de sempre

Quebra ela, a rotina
Só de vez em quando
De vez em quando me leva no planetário
Me leva no cinema, na pracinha dos namorados

Mas vê se não mexe muito no meu dia
Que eu quero ele pra ler, escrever
Pra ser forçado a viver.

por João de Brito

Pois é, crônica

Agora quem fala não é nenhuma mulher louca, menina solitária; nenhum psicopata homicida ou apaixonado. Quem fala é o que pensa por eles e neles. Admite então uma crônica, que é, em meu ver, um balanço de acontecidos. Faço, pois, o meu balanço.

Explicando melhor: quem escreve, mesmo que por métodos diferentes, utiliza-se de meios comuns de montagem do texto. Imagino certos detalhes dos personagens, uma ou outra estruturação física, além do fim, que é onde pretendo chegar. O papel do escritor é como de um cineasta: imagina-se, põe-se em prática, então vem a edição. Este é o ponto, a edição. A maioria dos pensamentos é descartada durante o processo, esquecida depois pelo escritor e nem sequer mencionados ao leitor. A edição esconde segredos, idéias que teriam ficado excelentes ou desastrosas, vergonha, medo de reações. Há muito mais num filme ou texto do que se possa pensar. Quem sabe eu conte algum “lado B” de textos meus.

Escrever confunde a mente, embaralha os pensamentos. A idéia de balanço é exatamente organizar a cabeça, colocar cada coisa em sua gaveta e jogar fora o que já não tem mais utilidade. Pretendia e pretendo eu, com uma crônica, dar minhas razões, motivos, fazer comentários. Afinal, textos em geral libertam a imaginação, mas limitam o escrever; já este formato tem um agradável tom de liberdade, que não usarei em demasia para evitar desgaste e/ou vício numa relativa liberdade.

Estou agora como uma loja em renovação. A diferença é que os meus produtos literários serão mostrados. As lojas em balanço fecham-se. Deixando de enrolação, a explicação: meus planos antes e depois de um texto geralmente são distintos; há modificações imprescindíveis, recalques, erros (propositais ou não), esquecimentos e há o acaso.

Foi por acaso que o gosto por pés de Júlia combinou com as passadas do rapaz sem nome. E me refiro a total acaso. Não era intenção minha o final escrito. Comecei o texto “Júlia” tentando escrever algo que entretesse e literalmente “enchesse lingüiça”; para isso vali-me de um sonho no qual eu andava numa rua do centro histórico (sonho, aliás, que ajudou bastante nas descrições presentes no texto). Fui então permeando descrições e dando prosseguimento ao acontecido, até que chegou o momento de apresentar a fascinante e enigmática Júlia. Pensei precisar transformá-la em algo diferente das meninas bonitas comuns, algo estranho, mas ao mesmo tempo atrativo aos mais curiosos; daí pensei no gosto por pés de num poder de crítica a pés feios. Acontece que, de primeira, não percebi uma possível relação “passo-pé” (nem de segunda). Continuei a escrever, passei pelo monólogo e chegando ao clímax deu-se o estalo. Meu final estranho e romântico estava formado. Os pés foram o “mote” de uma possível união, não explicitada no texto. Pronto, contado um dos segredos da confecção de “Júlia”. Há outros.

Presto contas também aos alopatas. Produtos de um acaso menor, mas acaso. Tanto que segredos de “Alopatia” não encheriam satisfatoriamente um parágrafo. Alguns: há certas palavras bem incomuns no texto, e pelo menos a maioria aprendi a usar no momento de escrever o tal texto. Isso porque tenho sempre um dicionário à mesa de estudos. Dele utilizei-me para conseguir o título: ao fim do texto, depois de inserir minha carga moderada de suspense e deixar perguntas sem respostas, ainda faltava o título; pois aconteceu que num pensamento ingênuo tomei o dicionário à mão e abri numa página qualquer. Lá estava “alopatia”, a primeira palavra que li. Encaixou-se.

E como é hora de metalinguagem: venho tentando escrever de modo a possibilitar uma “moral da história”, ou algo do tipo. Mas admito que é por medo de rejeição. O que pensa quem lê um texto a terminar sem “mensagem”? Tenho diálogos e prosas “sem mensagem” explícita ou comum. Não que sejam menos interessantes, mas ainda não vejo chance para expor um deles. Mas mostrarei. O que é intimista não é, exatamente, apreciado ou entendido. Afinal um réquiem toca as pessoas de maneiras diferentes. O acre não amarga na boca de todos.

Mas pensando bem e contradizendo (ou não) o dito no parágrafo de cima, vai uma citação retirada de “Como me tornei estúpido” de Martin Page:

“As pessoas ligeiras, superficiais, os espíritos presunçosos e entusiastas querem uma conclusão em todas as coisas;
Eles buscam a finalidade da vida e a dimensão do infinito.
Eles tomam na mão, na sua pobre mãozinha, um punhado de areia e dizem ao oceano:
‘Eu vou contar os grãos das tuas margens’.
Mas como os grãos lhes correm por e
ntre os dedos e como o cálculo é longo, eles batem os pés no chão e choram, eles choram.
Você sabe o que há para fazer na margem do rio?
Ajoelhar-se ou passear. Passeie!”

E agora uma citação final, de uma conversa ao telefone com nosso ilustre escritor e meu amiguinho querido Guilherme. Falávamos sobre não gostar de postar crônicas por serem invariavelmente pessoais:

“E quem se importa com o que a gente pensa?”

por João de Brito

Júlia

Tenho em mim os vários tipos de andar. Geralmente ritmado, hoje a pressa contida o ditava. Decerto não tenho visão panorâmica de mim mesmo, talvez por isso conheça melhor a aparência alheia do que a minha. Não me vejo de todos os ângulos, não me vejo andando, só suponho, imagino. Supunha então estar a “meio galope”, com companhia ao lado e na mesma quase pressa.

Íamos a lugares diferentes. Tanto que num cruzamento de rua dobrei na esquina de uma casa azul porta-e-janela. Num aceno rápido a despedida. E o caminho se abria à frente, mais ao meu encontro do que eu ao dele, pois a pressa já não era a mesma. Segui com as mãos nos bolsos, feição de inocência, ou mesmo curiosidade, olhando as casas e, às vezes, céu e pedestres, cada um em seu plano.

Com o avanço dos passos fui aproveitando as vitrines e portas de vidro para testar novas perspectivas. Até que o meu “fim da linha” enfim chegasse ainda tropecei algumas vezes nas calçadas desgastadas, acenei à distância para dois conhecidos indesejáveis, recebi panfletos de supermercado e propostas de empréstimo rápido e descomplicado com desconto em folha.

Depois de algumas quadras virei à esquerda em direção a uma vistosa maçaneta de porta de ferro. Pois neste abrir de porta vislumbrei uma sala grande, com atendente uniformizada e computador, além de cadeiras visivelmente bem projetadas: de desenho levemente curvo, encostos de várias cores (nenhuma discreta); os braços eram metálicos e os assentos, bem estofados. Algumas pessoas já lá figuravam, todas de caras iguais: caras de nada.

“Júlia?”, assustei-me ao reconhecer uma das caras de nada. Não sei se fui percebido.

Júlia era um tipo excêntrico (e linda). Mais bem modelada que as cadeiras, mesmo não tendo sido pensada por arquitetos. Todos os seus relacionamentos foram efêmeros, contrastando com os amores, poucos e duradouros. Saía sempre com traumas dos poucos namoricos e aos poucos foi perdendo a capacidade de se encantar, mas não a vontade. Por conseqüência criou um muro em volta de si: “Não ultrapasse”.

A garota era realmente um tanto diferente. Tinha tamanho fascínio por pés ao ponto de criticar os que via passando à rua: “Os piores são os que têm o segundo dedo de tamanho quase duas vezes maior que o primeiro”, classificava. Também gostava de saias, mas camisas eram a preferência. Não tão pequenas, pois era uma militante contra a vulgaridade.

Tinha opiniões fortes, era centrada e geniosa. Seu humor, por demais incompreendido por tender ao humor negro, por vezes escatológico. Parecia fisicamente com o pai, e da mãe parecia ter herdado todo o restante de seu ser. Manias as tinha aos montes, mas nada de mimada, pelo contrário.

Sem saber ao certo ter sido notado ou não, sentei-me num local dentro do campo de visão da garota e esperei que ela viesse ter comigo. A espera curta trouxe Júlia ao assento de encosto laranja logo à minha direita. Seu rosto não era mais de nada; assustou-se num susto bom, como eu ao vê-la. E já devidamente recostada em sua cadeira, começa a falar, logo após um cumprimento nada contido.

“Pensei que não fosse vir, por isso minha surpresa”.

“Até pensei na possibilidade, ainda mais que este não é um lugar propriamente de conversas. E você não me disse o motivo do chamado”.

Inicia-se então um monólogo com fim.

“Só sabe quem vive, o que passo não é assim facilmente suportável. Pode até ser um pouco de drama, mas o que posso fazer? Chamei você por sempre me entender e não recriminar. Certo: não me sinto mais a mesma, como se o que sinto e penso tivesse sido petrificado. Perdi o gosto da descoberta, da procura; fiz um mundinho para lá estagnar. Tudo culpa das decepções que eu não soube superar; quando vi, estava assim. Você não faz idéia do que é ter medo de ter medo. Você não imagina o pavor que tenho de me lançar numa nova ‘aventura’. Ou talvez imagine. São coisas da mente, pequenos traumas acumulados. Para falar a verdade já estive pior, mas não tinha consciência. Tanto estou melhor que com você falo abertamente. Quero um novo início, reiniciar-me. Mostrar que essa barreira à minha volta eu destruo, mas preciso de confiança. Esse sentimento de incompreensão sei que logo passa e não sou apenas eu a senti-lo. Não estou mal nem bem, mas queria viver”.

Percebi não precisar dar nenhuma palavra, estava implícita minha resposta. Júlia tinha vontade de falar e o fez; só queria ser ouvida. Ao fim sua cabeça encontrou meu ombro. Ali estavam o rapaz do passo e a menina dos pés.

Faltava a ela inocência para fascinar-se. O mundo para ela era redondo e achatado nos pólos. Enfim, eu sou o rapaz do passo , ela a menina dos pés.

por João de Brito

Combina. Completa.

Se é sobre fugir, me fala
que eu te faço um caça-palavras
com os termos que sinto
os sentimentos que escrevo.

Se te serve a brincadeira, vem
resolve as linhas
confirma ao fim as complicações
deixa tudo completo para nós

Eu te espero na próxima página
de significado e peito abertos.

por João de Brito

Sou uma lenda

If loneliness meant world acclaim, everyone would know my name. I’d be a legend in my time” – às 7 da manhã, este era o som do rádio: a voz grave e melancólica de Johnny Cash. O lugar era um subúrbio desses inchados, com todo tipo de gente.

À cama, ainda envolta em lençóis de algodão não-lavados há duas sofridas semanas, ela ouvia a canção já familiar, dada à sua temporária tristeza. Tinha os olhos já fundos de noites mal-dormidas, mesmo que sempre em casa estivesse. Ultimamente estava receosa de sair; não punha o rosto à porta nem para uma rápida espiada. Era um problema.

Desde criança cultivava o poder de maximizar, levar ao extremo, ao pé da letra, suas experiências de vida. Outrora, chamaram seu nome logo à frente da casa, mas bastou uma aproximação mais brusca rumo à porta para se ouvir passos como de corrida e perceber na soleira um pedaço de folha. O tal pedaço estava bastante amassado, até um pouco úmido, sinal de mãos nervosas, suadas, que talvez teimassem em entregar o recado. Por medo, quem sabe. Apreensão e medo. “É, apreensão ou medo” – pensou.

Faltava algo: ler. O poder da garota de maximizar os acontecidos era evidente, afinal era apenas um folha. “Para que tantas divagações? Apenas leia!” era algo que certamente não viria à mente temporariamente perturbada. Remoeu-se em hipóteses, pensou em galanteios anônimos, em deboche escrito, perseguição. “Mas só com um mísero bilhete? É, com um bilhete”, respondeu a si mesma em pensamento. Cogitou apenas jogar fora o tal papel, mas a curiosidade a consumiria. Continuava a corroer a mente com teorias improváveis: “Mas e se for o início de uma conspiração contra mim? Eu que mal não faço nem desejo”, martirizava-se.

Houve um barulho, som de campainha. O que a distraiu da situação por curtos segundos, tão efêmeros quanto o pensar deslocado da garota. Custava a abrir a porta, ação comum naqueles dias turvos, como se a neblina estivesse de guarda em seu quarto. Nesse custar sem motivo aparente, quem quiser que aguardasse resposta desistiu e seguiu seu caminho. O barulho dos passos do desistente deram margem à interpretações da “avariada”: “Deve de ser o mesmo sujeito do bilhete”. Como ela sabia se tratar de um “sujeito” e não de uma “sujeita”? A voz é a resposta. A voz ouvida da primeira batida. Pensou sobre: “Caso não seja, digamos, um bilhete amigável, o entregador devia realmente querer que eu ouvisse sua voz; do contrário, nada falaria, apenas soltaria o papel porta adentro”.

Deu-se um estalo mental. O bilhete estava em mãos, mãos nervosas, sendo mais amassado ainda. Tomavam quase um tom amarelado: o bilhete e a mulher. Sentia vontade de lê-lo, mas agora também havia a preocupação de não rasgá-lo devido à umidade das mãos.

Tomada de um súbito lampejo de lucidez, não recobrou totalmente sua consciência de realidade, mas o bastante para tomar a atitude mais difícil do dia, quase um mês, de tão demorado: abrir a mão e ler.

O bilhete era bem pequeno, com listras azuis. Apenas uma face estava escrita, em letra cursiva de tamanho e forma milimetricamente padronizados. Ela então leu e imaginou a imagem do remetente:

“Eu sei o seu mais profundo segredo”, dizia a face escrita.

A resposta da garota foi imediata. Percebeu uma caneta próxima e num escrever corrido na face oposta do papel foi como se falasse:

“O maior segredo é não haver segredo algum”.

Largou o pedaço onde encontrou. Podia voltar à sua vida pequena.

por João de Brito

Pílulas de a-sabedoria

I

As nuvens são feitas de algodão-doce. Talvez os pensamentos sejam feitos de pipoca: provêm de um estalo, aumentam de tamanho, são então temperados e quando já prontos, “assimilados”.

É hora de ir. Eu e meu semi-hermetismo. Quem sabe um dia retorne. Deve ser mais fácil quando se é de pipoca.

 

II

Certo, uma curiosidade então: tenho azar com borrachas, nunca encontro uma que realmente apague. Algumas mancham. Outras mancham e colorem, como as verdes “Mercur” que teimam em deixar minhas páginas com um tom verde-borrado. Outro dia afanei uma branca de capinha laranja que até agora está uma maravilha. Mas as borrachas sempre me decepcionam (e desaparecem), assim como as pessoas.

 

III

– O que faz você aí sentado sozinho olhando pra cima?
– Convivas, nossa existência é miúda. Olhem para o céu numa dessas noites estreladas.

Nota: Entenda (ou não) cada pílula separadamente.

por João de Brito

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Nome: João Paulo
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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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