“Eu sou artista, escritor, modelo e ator e tudo mais que não presta! Preciso viver pra contar, andarilho de merda!”. Grande problema acordar com uma porrada na cara, um direto do sol das 6 da manhã. Outro grande problema é acordar dentro do carro e perceber que dormiu sentado. Quanto às aspas, realmente um andarilho com roupa atlética anos 80 me arrancou a base de socos no vidro do meu sono de recomposição, mas não teve nada desse discurso gentil, só o mandei a merda mesmo. Não sou artista, nem modelo, nem ator, sou só escritor e tudo mais que não presta. Aliás, não sou advogado (ponto para mim).
Tenho os olhos colados, dupla luta contra sol e lágrimas secas. O olho direito é o primeiro a ganhar força e avistar as costas distantes vestidas com o colorido brega daquela década e também a casa tomada por janelas foscas e vítreas e o portãozinho de madeira e pinheiros e samambaias em vasos pendurados. Calçada bem cuidada, a real walkside. A velha mania de pensar em inglês e de, pior, falar sozinho e de achar graça em se arrastar nos “e” e nas intervenções do próprio pensamento. “Não é bom para a fluidez, artista, escritor, modelo, ator”. E mania de self-hate, self-criticism. Digamos que eu tenho várias linhas de pensamento acontecendo simultaneamente. Uma delas vem me perguntando o que faço aqui estacionado e usando uma das duas únicas camisas sociais chiques de marca que tenho, a calça jeans preta borrada para todas as ocasiões, meia branca de colégio de freira e sapato decente ganho no natal de não me lembro quando. O desleixo fingido é o neo-fashionismo, baby. “Festa e open bar, combinação exata para quem quer dormir na rua (ou no carro)”. A festa é hipótese, open bar é certeza.
Os olhos descolados mostram melhor a bela casa. Descobri faz alguns segundos que sou fã de janelas foscas de vidro e portas de madeira com as fibras aparentes. E tem um sobrado do outro lado da rua, talvez uns 3 quartos para alugar e olhos espiando o idiota que dormiu no carro e sentado. As pernas agora doem. Ou já doiam antes enquanto a minha maior preocupação era tirar o gosto de baba seca da boca. Aliás, pior que o sol na cara é a saliva pouco fluida do recém-desperto. Sentir os dois ao mesmo tempo é um eficaz método de comparação. Tenho um certo problema com olhares curiosos, o que me impede de deixar o carro e verificar da varanda a bela porta de madeira e vidro até com algo de ferro em espiral preto. O olhar desinteressado de quem passa logo ao lado do carro na rua não é invasivo nem cobra explicações. O curioso ali da janela amarela deve até se questionar se é só preguiça meu uso de camisas gastas. Não vou contar a ele do meu neo-fashionismo, deixo-o com a boa ilusão de preguiça, que vale para nós dois.
Sorte é que pensar sozinho é bem mais rápido que conversar. Não devo ter três minutos de acordado. Endereço anotado, tenho que voltar depois, afinal preciso contar pra viver (ou o contrário). Como só dirijo descalço, jogo os sapatos pro lado e sigo em frente com a menos ágil das agilidades. Gostei desse Black Sabbath tocando nas caixas de som dos postes. Lá na frente vai aquele cara de bermuda verde marca-texto e regata vermelha. Deep Purple tocando? É sonho. “Some stupid with a flare gun burned the place to the ground”. Aliás, gosto muito do filme do Cazuza quando ele canta essa música usando uma camisa do Mickey. Fashionismo anos 80.


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