Enche-me os olhos

Tive uma infância bem completa, feliz, permeada pela inocência que deve haver quando se é pequeno e mais ingênuo. Não fui sapeca, arteiro, traquina (fui chorão, mas esse é outro assunto); também não tive brincadeiras de interior, fui guri urbano. Em compensação fui fantasioso, imaginativo, um guri de 1,10m pensando que pensava. O bairro era uma província dentro de outra; a casa, numa avenida (lembro até hoje do endereço: avenida 1, quadra 17, casa 129, Jardim América). Dei azar de não ter amigos ao redor de casa, cercada por comércios, mas satisfiz-me na escolinha do bairro, onde pude exercer meu direito de ser criança com toda a energia disponível.

Os prantos do primeiro dia de aula deram lugar à pequenas amizades, amiguinhos de brincar no recreio, de se divertir com massa de modelar, de dividir um pouquinho do lanche com o outro. Além de já comentar sobre as menininhas mais bonitas no esplendor dos 6 anos de idade (a mais bonita era a Daniara, loirinha; a minha namoradinha era a Aline, “amor infantil” correspondido). Comentários sem maldade, apenas uma leve iniciação no bom gosto.

A escola à época era pequena, a entrada suportava mal uma bicicleta. Instalações modestas, um computador para toda a escola, mas tudo superado por um perceptível compromisso em não deixar para trás os futuros jovens. Realmente foi aquela escolinha a responsável pela minha “infância social”.

Foi tão bom ser criança. Sem preocupações, sem grandes frustrações, sem percepção da horrenda realidade. Foi mesmo muito bom: brincar no parquinho da escola era o ponto alto do dia. No chão era areia e umas pedrinhas e olhando para cima, os baixos brinquedos que pareciam altos. Nesse lugar de escorregadores, escadinhas, crianças tropeçando e levantando, balanços, eu perdia minha pouca noção do mundo. Eu ainda não sabia, mas esse “desligar-se” do mundo se tornaria meu maior e mais querido (porém longínquo) prazer. Essas brincadeiras tão bobas em meio a brinquedos simples e enferrujados são minhas “lembranças de segurança”. Reminiscências da boa época de ingenuidade.

Mas agora o que eu sou? Não faço idéia. Mas sei que a boa época passou quando cresci. Fui arremessado nesse mundo maldito. Mudei, mudei muito. Não tenho mais a ternura de quando preenchia com capricho minhas caligrafias; hoje escrevo com raiva, com angústia. A culpa não sei se é minha que resolvi pensar. Talvez pensar tenha sido a decisão menos sensata da minha vida. Depois de crescidinho meu sonho é entrar num transe-êxtase dos alienados. Queria saber como se sentem os idiotas que Lula arrebanha/engana. Gostaria também de ser um dos retardados que vão anualmente aos Marafolias e similares. Mas fui teimoso, quis ir contra a maré, quis adquirir cultura, ouvir boa música. Deu no que deu. Vou vivendo as vezes angustiado, puto da vida, perplexo enquanto os idiotizados vestidos com abadás exibem sorrisos de satisfação e corpos esculpidos nos “centros oficiais de idiotização”, também chamados academias.

“Que besteira se lamentar”. Discordo! Não é lamento. É um pedido, um encarecido pedido aos que pensam muito mais que eu. Desejo duas coisas, mas se for difícil, qualquer uma das duas já serve e muito. Quer saber? Falo depois o que quero, porque fica legal para um desfecho.

Vejo-me neurótico daqui a algum tempo, preciso me acalmar. Mas acalmar-se é aceitar imposição e eu não aceito (facilmente). Talvez a loucura, neurose ou a senilidade sejam uma honraria dedicada aos que já pensaram demais. Não quero durar muito tempo, nem pensar em virar “Dercy”. Não quero dar excessivo trabalho para mim nem para os outros, mas caso eu viva mais tempo que a média, quero virar um louco, gagá e quem sabe um filósofo. A insanidade é mais normal que a falsa normalidade apregoada.

Como era bom ser criança, não ter dúvidas existenciais nem preocupações. Por que ninguém avisou antes que ia ser assim? Deve ser um revanchismo acumulado. Por fim, meu dois desejos: você aí que pensa mais que eu, consiga, por favor, um jeito de eu viver sem cérebro, transforme-me num acéfalo, a exemplo dos seguidores de Lula e dos foliões. Não falo de deixar de usar o cérebro, mas sim de não ter essa coisa cinzenta que nos faz um mau tão bom e um bem tão ruim. Espera, espera, espera! Cancela esse e ouve o próximo. Vê se consegue fazer pra mim uma máquina do tempo personalizada e me envia para 1995, quando eu ainda era criança, feliz da vida, sorridente e tranquilo; nos tempos que meu maior sonho ou realização não era um complicado “transe-êxtase”, mas um simples recreio em meio a crianças iguais a mim, num parquinho surrado, mas acolhedor, com chão de terra e brinquedos enferrujados. Meus companheiros de uma infância perdida.

por João de Brito

9 Respostas para “Enche-me os olhos”


  1. 1 Guilherme Gurgel 4 Outubro, 2007 às 10:00 pm

    Esse texto ficou lindo! O teu melhor até agora :)

  2. 2 Isabela 4 Outubro, 2007 às 10:56 pm

    seu bandido!!!!!!!!!!!!!!!!!!!1

    c eh um bruto!@
    bota no colo e espanca!

    olha, se você conseguir a tal máquina do tempo, avisa……….ser guria é uma coisa q dá saudade perto dessa m**** de mundo q a gente vive hoje.

  3. 3 João Paulo 5 Outubro, 2007 às 11:24 am

    Coisa linda. Lembrou até o endereço do Jardim América. Chorei.

  4. 4 Gabi 6 Outubro, 2007 às 9:57 pm

    Oi Neto!
    Adorei seu texto muito, muito, muito bom mesmo.
    Que lembranças e saudades da infancia ele proporciona, fiquei emocionada :)
    Essa parte de “transforme-me num acéfalo, a exemplo dos seguidores de Lula e dos foliões” foi otima, concordo com suas opnioes e caso consiga a maquina me empresta.
    Bjao

  5. 5 Gabi 6 Outubro, 2007 às 9:58 pm

    Com tuas e nao suas, rsrsr

  6. 6 Rafinha 7 Outubro, 2007 às 8:57 pm

    tô emocionada…
    tô pensandoo…
    e eu tô em dúvidaa…
    eu nao sou “acefala”…
    odeio marafolia…
    mas eu gosto d akdemia… mas eu… sei lah… “centros oficiais de idiotização”?
    ofendidaaa…
    aiinnnn
    num sei…
    mas tu é doente…
    eu te amo, cara!
    asauhsuhauhsa

    =*

  7. 7 Maldição 8 Outubro, 2007 às 5:07 pm

    Desgraçado… Sabes que odeio minha infância… Não por ela ter sido ruim, mas por ela ter sido perdida pelos caminhos da minha frágil memória… Por isso não falastes do tema dessa crônica, não é mesmo? Sabia que não a leria se soubesse… Sádico…
    Música boa? “Orquestra Imperial” e “Secos e Molhados” lhe tiram a razão! Mas o que escrevestes tem lógica: começar a pensar num mundo alienado é horrível… Sei disso, apesar de estar entre os acéfalos, já que nunca fui ao marafolia por falta de oportunidade, votei no Lula e fazia academia… Nunca tive vergonha disso! :) (nós dois sabemos a única coisa que sinto vergonha: ex…)
    Devo admitir, seu texto melhorou! Seria devido ao curso de redação? Fico em dúvida agora… Além de outra dúvida: quando disse que desejaria algo, pensei que viesse um manisfesto ateu! Passou isso pela sua cabeça, não foi?
    Até amiguinho… Até um próximo texto…

  8. 8 Simone Miletic 9 Outubro, 2007 às 2:44 pm

    Olha minha pequena em casa e só consigo torcer para que ela nunca cresça.

    Fico desligando a tv, ou só colocando desenho, e invento respostas fantasiosas para suas perguntas, na esperança de que ela adie o máximo possível o inevitável pensar,

    Fico aqui pensando, ô coisa, que queria não ter crescido eu, mas se não tivesse crescido Carol não tava aí… E se Carol não tivesse aí, poxa, não ia o mundo ser o mesmo.

    Então aproveito o rolar na grama comcarol para reviver minha infância.

    Ao Maldição: eu não lembro nada de minhas infância, até os 10, 12 anos… Mas duvido que não tenha sido boa, melhor do que esses tempos adultos.

    Beijos

  9. 9 Simone 3 Dezembro, 2007 às 8:57 am

    Dia de furia, dia em que a gente pensa na merda que e começar a crescer. E o pior: a tendencia e piorar(no ponto de vista do texto). Piorar por que quanto mais cresce, mais parecido voce vai ficando com os adultos, porem voce na maioria das vezes nao se da conta disso. Quando se der conta, ja aconteceu. Ai vai querer voltar no tempo, quem sabe ate agir meio que estupidamente, ate perceber que nao volta mesmo. E ver que e realmente importante ser adulto e ter experiencia de vida, e valorizar essas experiencias de uma forma diferente da que vc faz hoje.

    Um grande abraço pra vcs.


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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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