Pois é, crônica

Agora quem fala não é nenhuma mulher louca, menina solitária; nenhum psicopata homicida ou apaixonado. Quem fala é o que pensa por eles e neles. Admite então uma crônica, que é, em meu ver, um balanço de acontecidos. Faço, pois, o meu balanço.

Explicando melhor: quem escreve, mesmo que por métodos diferentes, utiliza-se de meios comuns de montagem do texto. Imagino certos detalhes dos personagens, uma ou outra estruturação física, além do fim, que é onde pretendo chegar. O papel do escritor é como de um cineasta: imagina-se, põe-se em prática, então vem a edição. Este é o ponto, a edição. A maioria dos pensamentos é descartada durante o processo, esquecida depois pelo escritor e nem sequer mencionados ao leitor. A edição esconde segredos, idéias que teriam ficado excelentes ou desastrosas, vergonha, medo de reações. Há muito mais num filme ou texto do que se possa pensar. Quem sabe eu conte algum “lado B” de textos meus.

Escrever confunde a mente, embaralha os pensamentos. A idéia de balanço é exatamente organizar a cabeça, colocar cada coisa em sua gaveta e jogar fora o que já não tem mais utilidade. Pretendia e pretendo eu, com uma crônica, dar minhas razões, motivos, fazer comentários. Afinal, textos em geral libertam a imaginação, mas limitam o escrever; já este formato tem um agradável tom de liberdade, que não usarei em demasia para evitar desgaste e/ou vício numa relativa liberdade.

Estou agora como uma loja em renovação. A diferença é que os meus produtos literários serão mostrados. As lojas em balanço fecham-se. Deixando de enrolação, a explicação: meus planos antes e depois de um texto geralmente são distintos; há modificações imprescindíveis, recalques, erros (propositais ou não), esquecimentos e há o acaso.

Foi por acaso que o gosto por pés de Júlia combinou com as passadas do rapaz sem nome. E me refiro a total acaso. Não era intenção minha o final escrito. Comecei o texto “Júlia” tentando escrever algo que entretesse e literalmente “enchesse lingüiça”; para isso vali-me de um sonho no qual eu andava numa rua do centro histórico (sonho, aliás, que ajudou bastante nas descrições presentes no texto). Fui então permeando descrições e dando prosseguimento ao acontecido, até que chegou o momento de apresentar a fascinante e enigmática Júlia. Pensei precisar transformá-la em algo diferente das meninas bonitas comuns, algo estranho, mas ao mesmo tempo atrativo aos mais curiosos; daí pensei no gosto por pés de num poder de crítica a pés feios. Acontece que, de primeira, não percebi uma possível relação “passo-pé” (nem de segunda). Continuei a escrever, passei pelo monólogo e chegando ao clímax deu-se o estalo. Meu final estranho e romântico estava formado. Os pés foram o “mote” de uma possível união, não explicitada no texto. Pronto, contado um dos segredos da confecção de “Júlia”. Há outros.

Presto contas também aos alopatas. Produtos de um acaso menor, mas acaso. Tanto que segredos de “Alopatia” não encheriam satisfatoriamente um parágrafo. Alguns: há certas palavras bem incomuns no texto, e pelo menos a maioria aprendi a usar no momento de escrever o tal texto. Isso porque tenho sempre um dicionário à mesa de estudos. Dele utilizei-me para conseguir o título: ao fim do texto, depois de inserir minha carga moderada de suspense e deixar perguntas sem respostas, ainda faltava o título; pois aconteceu que num pensamento ingênuo tomei o dicionário à mão e abri numa página qualquer. Lá estava “alopatia”, a primeira palavra que li. Encaixou-se.

E como é hora de metalinguagem: venho tentando escrever de modo a possibilitar uma “moral da história”, ou algo do tipo. Mas admito que é por medo de rejeição. O que pensa quem lê um texto a terminar sem “mensagem”? Tenho diálogos e prosas “sem mensagem” explícita ou comum. Não que sejam menos interessantes, mas ainda não vejo chance para expor um deles. Mas mostrarei. O que é intimista não é, exatamente, apreciado ou entendido. Afinal um réquiem toca as pessoas de maneiras diferentes. O acre não amarga na boca de todos.

Mas pensando bem e contradizendo (ou não) o dito no parágrafo de cima, vai uma citação retirada de “Como me tornei estúpido” de Martin Page:

“As pessoas ligeiras, superficiais, os espíritos presunçosos e entusiastas querem uma conclusão em todas as coisas;
Eles buscam a finalidade da vida e a dimensão do infinito.
Eles tomam na mão, na sua pobre mãozinha, um punhado de areia e dizem ao oceano:
‘Eu vou contar os grãos das tuas margens’.
Mas como os grãos lhes correm por e
ntre os dedos e como o cálculo é longo, eles batem os pés no chão e choram, eles choram.
Você sabe o que há para fazer na margem do rio?
Ajoelhar-se ou passear. Passeie!”

E agora uma citação final, de uma conversa ao telefone com nosso ilustre escritor e meu amiguinho querido Guilherme. Falávamos sobre não gostar de postar crônicas por serem invariavelmente pessoais:

“E quem se importa com o que a gente pensa?”

por João de Brito

8 Respostas para “Pois é, crônica”


  1. 1 Thiago Maldição 19 Agosto, 2007 às 10:40 am

    Desde qnd tu escreve crônica? Ei cara, vc revelou os segredos de Júlia… Poxa, pensei q só eu fosse saber…

  2. 2 Guilherme Gurgel 19 Agosto, 2007 às 8:03 pm

    Rapaz, até eu entrei na crônica? Heheh.

    Ficou fabuloso esse texto, tu escreve muito bem. É uma crônica ligeiramente grande, mas nem um pouco cansativa.

  3. 4 Nil 20 Agosto, 2007 às 7:23 pm

    meu caro João, achei que o seu balanço foi muito bom!! so a ultima frase que acho que não define bem !! vc poderia acabar falando e quem ler isso??? suponho que além de nós quatro não vem mais quase ninguem

  4. 5 João Neto 20 Agosto, 2007 às 8:37 pm

    Concordo com Mr. Nilson. Mas pergunto: e quem lê os comentários de um blog que ninguém lê?

  5. 6 Nil 24 Agosto, 2007 às 2:37 am

    Um fracassado no amor, na literatura e na vida !! Como eu

  6. 7 Simone Miletic 28 Agosto, 2007 às 8:30 pm

    Ei, eu sempre venho aqui!

    E sim, me importo com o que escreve João… Ou pelo menos gosto!

    Ah… E leio os comentários tbm! Não devo ser normal…

    Beijos

    Si

  7. 8 Anderson 3 Setembro, 2007 às 10:31 am

    Rapaz, eu sabia que tu fazia crônicas, mas essa ficou um “pouco” grande,né???
    mas o que importa é que tá ficando legal!!!!


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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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