Arquivo para Julho, 2007

Combina. Completa.

Se é sobre fugir, me fala
que eu te faço um caça-palavras
com os termos que sinto
os sentimentos que escrevo.

Se te serve a brincadeira, vem
resolve as linhas
confirma ao fim as complicações
deixa tudo completo para nós

Eu te espero na próxima página
de significado e peito abertos.

por João de Brito

Sou uma lenda

If loneliness meant world acclaim, everyone would know my name. I’d be a legend in my time” – às 7 da manhã, este era o som do rádio: a voz grave e melancólica de Johnny Cash. O lugar era um subúrbio desses inchados, com todo tipo de gente.

À cama, ainda envolta em lençóis de algodão não-lavados há duas sofridas semanas, ela ouvia a canção já familiar, dada à sua temporária tristeza. Tinha os olhos já fundos de noites mal-dormidas, mesmo que sempre em casa estivesse. Ultimamente estava receosa de sair; não punha o rosto à porta nem para uma rápida espiada. Era um problema.

Desde criança cultivava o poder de maximizar, levar ao extremo, ao pé da letra, suas experiências de vida. Outrora, chamaram seu nome logo à frente da casa, mas bastou uma aproximação mais brusca rumo à porta para se ouvir passos como de corrida e perceber na soleira um pedaço de folha. O tal pedaço estava bastante amassado, até um pouco úmido, sinal de mãos nervosas, suadas, que talvez teimassem em entregar o recado. Por medo, quem sabe. Apreensão e medo. “É, apreensão ou medo” – pensou.

Faltava algo: ler. O poder da garota de maximizar os acontecidos era evidente, afinal era apenas um folha. “Para que tantas divagações? Apenas leia!” era algo que certamente não viria à mente temporariamente perturbada. Remoeu-se em hipóteses, pensou em galanteios anônimos, em deboche escrito, perseguição. “Mas só com um mísero bilhete? É, com um bilhete”, respondeu a si mesma em pensamento. Cogitou apenas jogar fora o tal papel, mas a curiosidade a consumiria. Continuava a corroer a mente com teorias improváveis: “Mas e se for o início de uma conspiração contra mim? Eu que mal não faço nem desejo”, martirizava-se.

Houve um barulho, som de campainha. O que a distraiu da situação por curtos segundos, tão efêmeros quanto o pensar deslocado da garota. Custava a abrir a porta, ação comum naqueles dias turvos, como se a neblina estivesse de guarda em seu quarto. Nesse custar sem motivo aparente, quem quiser que aguardasse resposta desistiu e seguiu seu caminho. O barulho dos passos do desistente deram margem à interpretações da “avariada”: “Deve de ser o mesmo sujeito do bilhete”. Como ela sabia se tratar de um “sujeito” e não de uma “sujeita”? A voz é a resposta. A voz ouvida da primeira batida. Pensou sobre: “Caso não seja, digamos, um bilhete amigável, o entregador devia realmente querer que eu ouvisse sua voz; do contrário, nada falaria, apenas soltaria o papel porta adentro”.

Deu-se um estalo mental. O bilhete estava em mãos, mãos nervosas, sendo mais amassado ainda. Tomavam quase um tom amarelado: o bilhete e a mulher. Sentia vontade de lê-lo, mas agora também havia a preocupação de não rasgá-lo devido à umidade das mãos.

Tomada de um súbito lampejo de lucidez, não recobrou totalmente sua consciência de realidade, mas o bastante para tomar a atitude mais difícil do dia, quase um mês, de tão demorado: abrir a mão e ler.

O bilhete era bem pequeno, com listras azuis. Apenas uma face estava escrita, em letra cursiva de tamanho e forma milimetricamente padronizados. Ela então leu e imaginou a imagem do remetente:

“Eu sei o seu mais profundo segredo”, dizia a face escrita.

A resposta da garota foi imediata. Percebeu uma caneta próxima e num escrever corrido na face oposta do papel foi como se falasse:

“O maior segredo é não haver segredo algum”.

Largou o pedaço onde encontrou. Podia voltar à sua vida pequena.

por João de Brito

Oscilações

Num quarto escuro,
além do alcance de qualquer ser
(deus ou não)
uma lágrima cai.

O tempo pára
num instante infinito
de infinita tristeza
e lucidez.

Lembranças surgem
como um rápido lampejo
de distantes felicidades
perdidas nos labirintos do passado.

Mas nada muda…

A lágrima continua a cair
e se desfaz no frio chão.

A solidão permanece
encobrindo tudo em trevas.

por Guilherme

Thomas

33

33: isso que sou?
Mostra o que realmente eu fiz?

O tanto que sofri
Para aprender tudo que aprendi
Palavras duras que não entendo
E o que vc diz ser eu

 

33?
É isso que sou?
Mais uma merda de um número
Mais um na estatística

Nunca nem perguntou nada a mim
Sou simplesmente 33

 

Me deixa viver
Não me ocupa
Não devo nada

Tem de ser do meu jeito

por Nilson

Sonho sinestésico

Ecos de silêncio
soam sobre mim
como uma música eterna
exaltando a solidão.

Formas abstratas
flutuam ao meu redor
luminosas, coloridas
(sinto-me feliz…).

Mas no auge
quando tudo é luz, cor e música
acordo
na fria e escura realidade
choro.

por Guilherme

Pílulas de a-sabedoria

I

As nuvens são feitas de algodão-doce. Talvez os pensamentos sejam feitos de pipoca: provêm de um estalo, aumentam de tamanho, são então temperados e quando já prontos, “assimilados”.

É hora de ir. Eu e meu semi-hermetismo. Quem sabe um dia retorne. Deve ser mais fácil quando se é de pipoca.

 

II

Certo, uma curiosidade então: tenho azar com borrachas, nunca encontro uma que realmente apague. Algumas mancham. Outras mancham e colorem, como as verdes “Mercur” que teimam em deixar minhas páginas com um tom verde-borrado. Outro dia afanei uma branca de capinha laranja que até agora está uma maravilha. Mas as borrachas sempre me decepcionam (e desaparecem), assim como as pessoas.

 

III

– O que faz você aí sentado sozinho olhando pra cima?
– Convivas, nossa existência é miúda. Olhem para o céu numa dessas noites estreladas.

Nota: Entenda (ou não) cada pílula separadamente.

por João de Brito

Amigo Pó

Enfim, pó,
Dizer-te é o que sempre quis
Antes de partir
Eu ou tu

Percebes o despreparo
Entendo a falta que faz
Tempos antigos

Enfeita-te, adora-te
Agora há tempo
Já que somos um só

Já que encontrei
Em canto qualquer
Teu pensamento

[comprimido

Tal sono chegou
Teu fim

Enfim, pó.

por João Paulo

Maybe now is the time

I need to write
`cause have someone inside of me
Who screams
Who needs to write

But that’s not my mother language
my first language
how can express myself?
How can show myself?

In one different place
One different language
You need change

And time keeps passing by
And nobody waits for you
Trust me: nobody waits for your time

Nota: Nosso nobre amigo Nilson é atualmente intercambista no Canadá.

por Nilson

Devaneio depressivo

 

Sonho
doce ilusão da inexistência
faz-me voar.

Além das nuvens
do céu
da lua
das estrelas.

Além do tempo
do infinito
da vida
da morte.

 

Sonho
deus dos descrentes
guarda-me da dor

de amar
de sofrer
de chorar

de ser o melhor
mas não ser
o bastante.

 

Sonho
meu refúgio de solidão
leva-me daqui.

Para que eu esqueça
do tudo que ela é
e do nada que eu sou…

 

Sonho.

por Guilherme

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Nome: João Paulo
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Pseudoescritor frustrado.


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Nome: Nilson
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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Nome: João de Brito
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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Nome: Guilherme
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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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