Passatempo

– E se eu disser que não ligo pra nada disso?
Suspira.
– Não sei o que dizer.
– Pois deveria. Tens culpa em tudo o que aconteceu.
Dá de ombros. Caminha. Vira-se e acusa.
Dedo em riste:
– Canso–me de tuas injúrias! Nada fiz a não ser adorar–te. Adorar–te com tudo. Adorar–te, contudo.
– Vejo em tua face a mentira. Nunca foste boa em contar lorotas. Sabes bem disso.
– Minto. Minto, sim, admito. No entanto, tenho para isso motivos.
– Suas razões pouco importam. O que está feito, está feito. Não há volta.
Senta-se e cruza as pernas. Faz pose de moça séria.
– Levanta–te! Vá pôr sua melhor roupa. Faremos um passeio.
Vai ao quarto. Volta. Ele a espera. Sentado. Segura algo.
Os olhos saltam:
– Tu não precisas disso! Não chegues a tal ponto!
– Tarde demais.
– Não! Não! O que é isso?
– Isso, madame? O QUE É ISSO?

Isso é o fim.

por João Paulo

Infinito

Mal abria os olhos e lá estava ela. Radiante. Como o sol que atrapalha o sono matutino.

– Tive um sonho estranho – ela disse.
– Sério? – respondi.
– Verdade – disse me encarando, como que querendo alguma coisa.

Ela começou a contar. Era isso que queria. Nada fazia sentido no sonho. Era longo e parecia que jamais pararia de falar. Envolvia eu e mais três caras. Andávamos pela rua à noite, sem rumo, os postes apagados. O resto já esqueci. Ou apenas ignorei.

Fiquei sem paciência:

– Querida, eu realmente não me importo com nada disso.

Mentira. Eu jamais diria isso. Não. Não seria capaz. Tratei apenas de fitar-lhe os olhos, numa tentativa – frustrada, descobri depois – de demonstrar alguma atenção.

– Ei, que cara é essa? – ela disse. – Você nem está me escutando, não é?
Menti:

– Claro que sim! – Respondi ao mudar de posição na cama. – Você falava do seu sonho, que aliás, é muito interessante.

“Você acha?”. “Acho sim”. Previ o diálogo seguinte. Acertei.

Ela tinha um jeito especial de falar “você acha?”. Era alongado no “você”. Eu gostava.

Levantou e caminhou para o banheiro. Foi enrolada no lençol. Lançou-me um olhar e fechou a porta. Até agora não sei que olhar foi esse. Foi um misto de reprovação com afeto, ou decepção com tédio. Vai ver foi só um olhar sonolento. Ela gostava disso. De me deixar confuso.

Olhei para o relógio e voltei a dormir.

Novamente o sol batia em meu rosto. Só que agora a cama era toda minha. Abri os olhos e encontrei um papel. Peguei meus óculos sobre o criado mudo. Faltava alguma coisa ali.

A carta dizia:

Mal abria os olhos e lá estava você. Radiante. Como o Sol que atrapalha o sono matutino.

– Tive um sonho estranho – eu disse.
– Sério? – você respondeu.
– Verdade – eu disse lhe encarando, como que querendo alguma coisa.

Comecei a contar. Era isso que eu queria. Nada fazia sentido no sonho. Era longo, mas até que achei divertido. Envolvia você e mais três caras. Não sei quem eram. Andavam pela rua à noite, sem rumo, os postes apagados. Juntaram-se a um grupo maior e organizaram uma passeata. Haha! Que bobagem!

Você abriu a boca para falar alguma coisa. Mas nada saiu. Então notei que você não prestava atenção em nada que eu falava. Tinha uma cara de bobo.

– Ei, que cara boba é essa? – eu disse. – Você nem está me escutando, não é?

Notei quando você mentiu:

– Claro que sim! – você disse. Depois falou que meu sonho era interessante.

Dissimulei:
– Você acha?
– Acho sim.

Levantei e caminhei para o banheiro. Enrolei-me no lençol e lhe lancei um olhar não sei de que.

No banheiro me vesti. Quando voltei, você dormia. Resolvi escrever isso e deixar ao seu lado na cama.
Estou indo embora…

Parei de ler. Olhei para o criado-mudo. Ela havia roubado minha carteira.

Ao final, a carta dizia: “Estou indo embora. Levo o que é meu por direito. Por favor, não me procure mais.”

Não fiz nada. Não poderia fazer nada. Fiquei ali, simplesmente. Sentado. Até virar pedra.

por João Paulo

Avessado

Dois negros fujões pisam secos no asfalto.

– Fujo da vida.
– Busco a morte.

Um velho trançado, cabelo amarrado. Queimado de sol. Fortemente armado:

– Procuro dois negros fujões. Buscam a vida. Fogem da morte.

Deitados no asfalto. Embrenhados no mato. Um cartaz!
“Dois negros fujões procurados”.

No gueto afastado, com tudo avessado, um negro arrastado, morto e crucificado.

Dois negros fujões exilados.

Fujo da vida. Busco a morte. Supero o paraíso e aposto na sorte.

Seu grito final – um rito animal:

– Exalto a não vida, o exílio da morte.

por João Paulo

Uma última vez

Tão perto de ti,
Tão longe de mim.

Que aconteceu ao Sol,
Que até ontem ainda brilhava?

Hoje só há nuvens
E uma Lua pálida.

E dúvidas
E perguntas
E receios

E nenhuma resposta.

Será a vida apenas isso,
Uma busca interminável
Para um fim inevitável?

Por que então continuar
A buscar
A sofrer
A amar
A morrer?

Tão longe de ti,
Mais longe ainda de mim.

O que é o Sol
O que é a Lua

O que são essas dúvidas, perguntas, receios
O que é essa falta de respostas, essa busca sem fim
Esse sofrimento

Se não estás aqui
Para me amar
E para eu te amar?

Para eu esquecer a vida e a morte
A tristeza e o desespero
As simples angústias
De um simples humano?

Volta logo
E me salva novamente

Uma vez mais
Uma última vez.

por Guilherme

Conjugal

A vítima, o vitimado
O cônjuge, o conjugado
A consorte
O consorte
A com sorte

por João Paulo

Tiros de rima

Parto
O tempo em dois
E parto –
Em dois –
O que se atreve
A partir –
Em dois –
O momento

Partilho
O momento em palavras
E partilho –
Em palavras –
O que não se atreveu
Com o tempo
A partir –
Em dois

por João Paulo

A Travessia

É noite,
mas não há estrelas ou Lua iluminando o céu.
Apenas nuvens vermelhas,
anunciando um iminente temporal.

Encontro-me sozinho,
caminhando lentamente numa rua deserta.
O silêncio é quase absoluto,
quebrado apenas pelo som dos meus passos.

Um vento frio e contínuo vem contra mim,
queimando meu rosto,
como se tentasse me impedir de andar.
Mas não o deixo vencer-me, não desta vez.

Caminho com mais determinação,
e a ventania começa,
combinada com as primeiras gotas da chuva.

Quase desisto diante daquela força,
que me traz lembranças, pensamentos, tristeza, pessimismo.
Contudo continuo andando.
Não me darei por vencido novamente.

Avisto, então, uma luz ao longe,
vinda de uma porta entreaberta.
Não sei por que motivo,
mas começo a correr como se minha vida dependesse de chegar àquela porta.

A tempestade começa,
a água e o vento me empurram,
mais fortes a cada passo que dou,
e novamente penso em desistir.

Tento desviar esse pensamento,
e apenas corro.

Estou chegando à porta, falta pouco…
.
..

Mas, a poucos metros de alcançá-la,
caio,
como sempre acontece nos filmes.

A água da chuva parece me achatar contra o chão.
Tento me erguer, mas mal tenho forças para respirar.

Pela última vez, penso em desistir,
mas agora não creio que conseguirei vencer esse pensamento.

Começo a ceder ao peso da água
e à força do vento.
A escuridão começa a me dominar
e nada mais faço para impedi-la.

Quando nada além da morte parecia me restar,
a porta se abre
e a luz invade todo o lugar.

A tempestade pára subitamente, deixando apenas poças de água no asfalto.

Ouço passos ao longe,
que parecem ecoar até os confins da minha alma.
Livre do peso da chuva, levanto-me
e tento avistar quem se aproxima.

Mas não consigo, a luz é muito intensa.

Ao tentar me aproximar da porta, porém,
uma voz começa a falar comigo,
fazendo-me parar.

É uma voz doce, feminina,
à qual eu não cansaria de ouvir pelo resto de minha existência.

As palavras que me disse não tenho forças para repetir,
apenas digo que elas salvaram minha vida
e me fizeram sorrir,
algo que eu já pensava não poder fazer.

Quando a voz parou,
dei um passo hesitante em sua direção,
mas ela não me impediu,
simplesmente esperou.

Atravessei o portal,
e todas as minhas preocupações se foram.
Apenas a felicidade existia, mais forte e intensa que qualquer coisa.

Virei-me para a porta e a tranquei.
Nada mais importava.

por Guilherme

3º andar

E aqui estou
num momento de solidão física
mas num elevador lotado de pensamentos.

Pensamentos independentes de minha existência.
Pensamentos vivos que vêm e vão quando querem.

Me olham
Me analisam
Me estudam.

Zombam de mim por não compreendê-los.
Zombam por serem superiores a mim.
Zombam por serem simples, mas inalcançáveis.
Zombam de minha impotência, a impotência de um simples humano.

Sou inferior, eu sei.
Sou fraco, também sei isso.
Mas eles são apenas pensamentos,
e tentar compreendê-los é o sentido da minha existência.
(mesmo sabendo que nunca conseguirei)

Eles existem para mim.
Eu existo por eles.
Eminentes, mas apenas pensamentos.

(O elevador parou.
A porta abriu.)

É aqui que desço.

por Guilherme

Excursão

Ontem comi algo que me fez mal
Acordei de noite vomitando
Saiu tudo que eu não queria mais

Veio um pedaço de sensatez e um de inquietação
Veio o tormento da perda e uma coisa vermelha
Carne, arroz, feijão, umas folhas

Quando na garganta senti nostalgia e cólera
Fiz força pra engolir

por João de Brito

Enche-me os olhos

Tive uma infância bem completa, feliz, permeada pela inocência que deve haver quando se é pequeno e mais ingênuo. Não fui sapeca, arteiro, traquina (fui chorão, mas esse é outro assunto); também não tive brincadeiras de interior, fui guri urbano. Em compensação fui fantasioso, imaginativo, um guri de 1,10m pensando que pensava. O bairro era uma província dentro de outra; a casa, numa avenida (lembro até hoje do endereço: avenida 1, quadra 17, casa 129, Jardim América). Dei azar de não ter amigos ao redor de casa, cercada por comércios, mas satisfiz-me na escolinha do bairro, onde pude exercer meu direito de ser criança com toda a energia disponível.

Os prantos do primeiro dia de aula deram lugar à pequenas amizades, amiguinhos de brincar no recreio, de se divertir com massa de modelar, de dividir um pouquinho do lanche com o outro. Além de já comentar sobre as menininhas mais bonitas no esplendor dos 6 anos de idade (a mais bonita era a Daniara, loirinha; a minha namoradinha era a Aline, “amor infantil” correspondido). Comentários sem maldade, apenas uma leve iniciação no bom gosto.

A escola à época era pequena, a entrada suportava mal uma bicicleta. Instalações modestas, um computador para toda a escola, mas tudo superado por um perceptível compromisso em não deixar para trás os futuros jovens. Realmente foi aquela escolinha a responsável pela minha “infância social”.

Foi tão bom ser criança. Sem preocupações, sem grandes frustrações, sem percepção da horrenda realidade. Foi mesmo muito bom: brincar no parquinho da escola era o ponto alto do dia. No chão era areia e umas pedrinhas e olhando para cima, os baixos brinquedos que pareciam altos. Nesse lugar de escorregadores, escadinhas, crianças tropeçando e levantando, balanços, eu perdia minha pouca noção do mundo. Eu ainda não sabia, mas esse “desligar-se” do mundo se tornaria meu maior e mais querido (porém longínquo) prazer. Essas brincadeiras tão bobas em meio a brinquedos simples e enferrujados são minhas “lembranças de segurança”. Reminiscências da boa época de ingenuidade.

Mas agora o que eu sou? Não faço idéia. Mas sei que a boa época passou quando cresci. Fui arremessado nesse mundo maldito. Mudei, mudei muito. Não tenho mais a ternura de quando preenchia com capricho minhas caligrafias; hoje escrevo com raiva, com angústia. A culpa não sei se é minha que resolvi pensar. Talvez pensar tenha sido a decisão menos sensata da minha vida. Depois de crescidinho meu sonho é entrar num transe-êxtase dos alienados. Queria saber como se sentem os idiotas que Lula arrebanha/engana. Gostaria também de ser um dos retardados que vão anualmente aos Marafolias e similares. Mas fui teimoso, quis ir contra a maré, quis adquirir cultura, ouvir boa música. Deu no que deu. Vou vivendo as vezes angustiado, puto da vida, perplexo enquanto os idiotizados vestidos com abadás exibem sorrisos de satisfação e corpos esculpidos nos “centros oficiais de idiotização”, também chamados academias.

“Que besteira se lamentar”. Discordo! Não é lamento. É um pedido, um encarecido pedido aos que pensam muito mais que eu. Desejo duas coisas, mas se for difícil, qualquer uma das duas já serve e muito. Quer saber? Falo depois o que quero, porque fica legal para um desfecho.

Vejo-me neurótico daqui a algum tempo, preciso me acalmar. Mas acalmar-se é aceitar imposição e eu não aceito (facilmente). Talvez a loucura, neurose ou a senilidade sejam uma honraria dedicada aos que já pensaram demais. Não quero durar muito tempo, nem pensar em virar “Dercy”. Não quero dar excessivo trabalho para mim nem para os outros, mas caso eu viva mais tempo que a média, quero virar um louco, gagá e quem sabe um filósofo. A insanidade é mais normal que a falsa normalidade apregoada.

Como era bom ser criança, não ter dúvidas existenciais nem preocupações. Por que ninguém avisou antes que ia ser assim? Deve ser um revanchismo acumulado. Por fim, meu dois desejos: você aí que pensa mais que eu, consiga, por favor, um jeito de eu viver sem cérebro, transforme-me num acéfalo, a exemplo dos seguidores de Lula e dos foliões. Não falo de deixar de usar o cérebro, mas sim de não ter essa coisa cinzenta que nos faz um mau tão bom e um bem tão ruim. Espera, espera, espera! Cancela esse e ouve o próximo. Vê se consegue fazer pra mim uma máquina do tempo personalizada e me envia para 1995, quando eu ainda era criança, feliz da vida, sorridente e tranquilo; nos tempos que meu maior sonho ou realização não era um complicado “transe-êxtase”, mas um simples recreio em meio a crianças iguais a mim, num parquinho surrado, mas acolhedor, com chão de terra e brinquedos enferrujados. Meus companheiros de uma infância perdida.

por João de Brito

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Nome: João Paulo
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Brasileiro, sincero, que tenta em palavras expressar tudo que se passa no dia-a-dia, mesmo atropelando regras gramaticais e cometendo erros ortográficos. Desprovido de beleza, desprovido de habilidades, mas rapaz que tenta aprender o máximo, e que busca ser feliz nas coisas simples.


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Pouco patriota, dependente, desiludido e pessimista. Gosta de queijo, batata palha e boas músicas. Escrever é um hobbie, desses que se amarra na cintura.


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Um cara que sonha ser um escritor, e treina bastante para isso.


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