A vítima, o vitimado
O cônjuge, o conjugado
A consorte
O consorte
A com sorte
Parto
O tempo em dois
E parto –
Em dois –
O que se atreve
A partir –
Em dois –
O momento
Partilho
O momento em palavras
E partilho –
Em palavras –
O que não se atreveu
Com o tempo
A partir –
Em dois
por João Paulo
É noite,
mas não há estrelas ou Lua iluminando o céu.
Apenas nuvens vermelhas,
anunciando um iminente temporal.
Encontro-me sozinho,
caminhando lentamente numa rua deserta.
O silêncio é quase absoluto,
quebrado apenas pelo som dos meus passos.
Um vento frio e contínuo vem contra mim,
queimando meu rosto,
como se tentasse me impedir de andar.
Mas não o deixo vencer-me, não desta vez.
Caminho com mais determinação,
e a ventania começa,
combinada com as primeiras gotas da chuva.
Quase desisto diante daquela força,
que me traz lembranças, pensamentos, tristeza, pessimismo.
Contudo continuo andando.
Não me darei por vencido novamente.
Avisto, então, uma luz ao longe,
vinda de uma porta entreaberta.
Não sei por que motivo,
mas começo a correr como se minha vida dependesse de chegar àquela porta.
A tempestade começa,
a água e o vento me empurram,
mais fortes a cada passo que dou,
e novamente penso em desistir.
Tento desviar esse pensamento,
e apenas corro.
Estou chegando à porta, falta pouco…
.
..
…
Mas, a poucos metros de alcançá-la,
caio,
como sempre acontece nos filmes.
A água da chuva parece me achatar contra o chão.
Tento me erguer, mas mal tenho forças para respirar.
Pela última vez, penso em desistir,
mas agora não creio que conseguirei vencer esse pensamento.
Começo a ceder ao peso da água
e à força do vento.
A escuridão começa a me dominar
e nada mais faço para impedi-la.
Quando nada além da morte parecia me restar,
a porta se abre
e a luz invade todo o lugar.
A tempestade pára subitamente, deixando apenas poças de água no asfalto.
Ouço passos ao longe,
que parecem ecoar até os confins da minha alma.
Livre do peso da chuva, levanto-me
e tento avistar quem se aproxima.
Mas não consigo, a luz é muito intensa.
Ao tentar me aproximar da porta, porém,
uma voz começa a falar comigo,
fazendo-me parar.
É uma voz doce, feminina,
à qual eu não cansaria de ouvir pelo resto de minha existência.
As palavras que me disse não tenho forças para repetir,
apenas digo que elas salvaram minha vida
e me fizeram sorrir,
algo que eu já pensava não poder fazer.
Quando a voz parou,
dei um passo hesitante em sua direção,
mas ela não me impediu,
simplesmente esperou.
Atravessei o portal,
e todas as minhas preocupações se foram.
Apenas a felicidade existia, mais forte e intensa que qualquer coisa.
Virei-me para a porta e a tranquei.
Nada mais importava.
por Guilherme
E aqui estou
num momento de solidão física
mas num elevador lotado de pensamentos.
Pensamentos independentes de minha existência.
Pensamentos vivos que vêm e vão quando querem.
Me olham
Me analisam
Me estudam.
Zombam de mim por não compreendê-los.
Zombam por serem superiores a mim.
Zombam por serem simples, mas inalcançáveis.
Zombam de minha impotência, a impotência de um simples humano.
Sou inferior, eu sei.
Sou fraco, também sei isso.
Mas eles são apenas pensamentos,
e tentar compreendê-los é o sentido da minha existência.
(mesmo sabendo que nunca conseguirei)
Eles existem para mim.
Eu existo por eles.
Eminentes, mas apenas pensamentos.
(O elevador parou.
A porta abriu.)
É aqui que desço.
por Guilherme
Ontem comi algo que me fez mal
Acordei de noite vomitando
Saiu tudo que eu não queria mais
Veio um pedaço de sensatez e um de inquietação
Veio o tormento da perda e uma coisa vermelha
Carne, arroz, feijão, umas folhas
Quando na garganta senti nostalgia e cólera
Fiz força pra engolir
por João Neto
Tive uma infância bem completa, feliz, permeada pela inocência que deve haver quando se é pequeno e mais ingênuo. Não fui sapeca, arteiro, traquina (fui chorão, mas esse é outro assunto); também não tive brincadeiras de interior, fui guri urbano. Em compensação fui fantasioso, imaginativo, um guri de 1,10m pensando que pensava. O bairro era uma província dentro de outra; a casa, numa avenida (lembro até hoje do endereço: avenida 1, quadra 17, casa 129, Jardim América). Dei azar de não ter amigos ao redor de casa, cercada por comércios, mas satisfiz-me na escolinha do bairro, onde pude exercer meu direito de ser criança com toda a energia disponível.
Os prantos do primeiro dia de aula deram lugar à pequenas amizades, amiguinhos de brincar no recreio, de se divertir com massa de modelar, de dividir um pouquinho do lanche com o outro. Além de já comentar sobre as menininhas mais bonitas no esplendor dos 6 anos de idade (a mais bonita era a Daniara, loirinha; a minha namoradinha era a Aline, “amor infantil” correspondido). Comentários sem maldade, apenas uma leve iniciação no bom gosto.
A escola à época era pequena, a entrada suportava mal uma bicicleta. Instalações modestas, um computador para toda a escola, mas tudo superado por um perceptível compromisso em não deixar para trás os futuros jovens. Realmente foi aquela escolinha a responsável pela minha “infância social”.
Foi tão bom ser criança. Sem preocupações, sem grandes frustrações, sem percepção da horrenda realidade. Foi mesmo muito bom: brincar no parquinho da escola era o ponto alto do dia. No chão era areia e umas pedrinhas e olhando para cima, os baixos brinquedos que pareciam altos. Nesse lugar de escorregadores, escadinhas, crianças tropeçando e levantando, balanços, eu perdia minha pouca noção do mundo. Eu ainda não sabia, mas esse “desligar-se” do mundo se tornaria meu maior e mais querido (porém longínquo) prazer. Essas brincadeiras tão bobas em meio a brinquedos simples e enferrujados são minhas “lembranças de segurança”. Reminiscências da boa época de ingenuidade.
Mas agora o que eu sou? Não faço idéia. Mas sei que a boa época passou quando cresci. Fui arremessado nesse mundo maldito. Mudei, mudei muito. Não tenho mais a ternura de quando preenchia com capricho minhas caligrafias; hoje escrevo com raiva, com angústia. A culpa não sei se é minha que resolvi pensar. Talvez pensar tenha sido a decisão menos sensata da minha vida. Depois de crescidinho meu sonho é entrar num transe-êxtase dos alienados. Queria saber como se sentem os idiotas que Lula arrebanha/engana. Gostaria também de ser um dos retardados que vão anualmente aos Marafolias e similares. Mas fui teimoso, quis ir contra a maré, quis adquirir cultura, ouvir boa música. Deu no que deu. Vou vivendo as vezes angustiado, puto da vida, perplexo enquanto os idiotizados vestidos com abadás exibem sorrisos de satisfação e corpos esculpidos nos “centros oficiais de idiotização”, também chamados academias.
“Que besteira se lamentar”. Discordo! Não é lamento. É um pedido, um encarecido pedido aos que pensam muito mais que eu. Desejo duas coisas, mas se for difícil, qualquer uma das duas já serve e muito. Quer saber? Falo depois o que quero, porque fica legal para um desfecho.
Vejo-me neurótico daqui a algum tempo, preciso me acalmar. Mas acalmar-se é aceitar imposição e eu não aceito (facilmente). Talvez a loucura, neurose ou a senilidade sejam uma honraria dedicada aos que já pensaram demais. Não quero durar muito tempo, nem pensar em virar “Dercy”. Não quero dar excessivo trabalho para mim nem para os outros, mas caso eu viva mais tempo que a média, quero virar um louco, gagá e quem sabe um filósofo. A insanidade é mais normal que a falsa normalidade apregoada.
Como era bom ser criança, não ter dúvidas existenciais nem preocupações. Por que ninguém avisou antes que ia ser assim? Deve ser um revanchismo acumulado. Por fim, meu dois desejos: você aí que pensa mais que eu, consiga, por favor, um jeito de eu viver sem cérebro, transforme-me num acéfalo, a exemplo dos seguidores de Lula e dos foliões. Não falo de deixar de usar o cérebro, mas sim de não ter essa coisa cinzenta que nos faz um mau tão bom e um bem tão ruim. Espera, espera, espera! Cancela esse e ouve o próximo. Vê se consegue fazer pra mim uma máquina do tempo personalizada e me envia para 1995, quando eu ainda era criança, feliz da vida, sorridente e tranquilo; nos tempos que meu maior sonho ou realização não era um complicado “transe-êxtase”, mas um simples recreio em meio a crianças iguais a mim, num parquinho surrado, mas acolhedor, com chão de terra e brinquedos enferrujados. Meus companheiros de uma infância perdida.
por João Neto
Por um instante
fez-se silêncio.
Nenhuma palavra,
nenhum suspiro,
nenhum murmúrio.
Apenas um cruzar de olhares
que nada significava para o resto do mundo,
mas que para eles era tudo.
Podiam sentir, como nunca antes,
os pensamentos, os sentimentos e as dúvidas
um do outro.
E sentiram-se completos,
felizes, invencíveis enquanto estivessem juntos.
Por um instante
dois pares de olhos se fecharam,
dois corpos se abraçaram
e duas pessoas se beijaram.
Por um instante,
que nada significava para o resto do mundo,
um novo amor nasceu.
por Guilherme
Narciso era um “auto-fanático”, apaixonado por ele mesmo. Narciso é o melhor exemplo de narcisista (lógico!). Em bom (ou mau) linguajar, era a fim de si mesmo. Decerto um vaidoso, arrumava-se para um culto próprio, para se ver refletido nas águas, para contemplar a si próprio num ritual de “auto-tesão”.
Não tenho nomes, mas há loucos por pés. Certamente não sou um deles; pés fedem, por isso, ou por motivos mais nobres, a evolução manteve-os longe do nariz. Adoradores de pés são insanos, gostam de chupar dedos alheios, dedões gordos, dedões magros, com unhas quebradas, encravadas, pés engordurados, amarelados pela falta de higiene; acometidos por pé-de-atleta, frieira. Lambem solas, até saltos. Um estranho gosto (de chão).
Há os espremedores de espinha, irmãos dos engolidores de catarro e meleca. Não podem ver uma protuberância que já empunham os dedos em posição de ataque. Nem sempre as investidas vêm com aviso prévio para os atacados. É um prazer, um êxtase, ver o purulento líquido escorrendo ou voando; dá até um gosto inesperado de “quero mais”.
“Cada louco com sua mania” e “gosto é que nem cu” são muito clichês. No caso de vontade louca é melhor ser direto: “Quero lamber teu ouvido!”
por João Neto
Ache as presenças
Na selva das árvores frias
Deles irá ganhar
Talvez nunca entenderá
Corra e estampe
o sorriso em sua face
Será assim sempre
dia após dia
O cálice vazio
e eu cheio de tudo
sinceramente me enganei
sem saber quem está errado
Parto
Rumo ao fogo
Ninguém pede licença
Eu morro
Em galhos secos
por Nilson
Morri, mas nada aconteceu. Ou melhor, nada do que eu pensava que iria acontecer quando “minha hora” chegasse. Não vi qualquer túnel com uma luz no fim, nem fui ao paraíso ou ao inferno. Minha “alma” sequer saiu do meu corpo.
Isso mesmo: estou morto, mas não completamente. Minha consciência, de alguma forma, ainda está “viva”. Não sei se isso ocorre com todo mundo que morre, só sei que, no momento, meu estado é esse – um “morto consciente”, e continuo percebendo tudo o que acontece ao meu redor, apesar de não poder influenciar em nada.
Minha última lembrança em vida foi uma bela pancada em conseqüência de um acidente de carro (eu estava bêbado, é claro). Não senti dor alguma, já que tudo foi tão rápido que sequer deu tempo de completar minha última exclamação ao ver que havia um caminhão vindo em sentido contrário: “Eita! Fu…” POF! Depois disso não lembro de mais nada, pelo menos até “acordar morto”.
Obviamente, não estou respirando, ouvindo ou vendo nada. Mas, de alguma maneira que não sei explicar, “sinto” tudo o que está acontecendo e, com uma certa alegria, percebi que consigo “ouvir” os pensamentos das pessoas.
Neste momento há alguns bombeiros tentando retirar meu corpo das ferragens.
“Xi… Esse aí já era”, um deles pensa.
“Antes ele do que eu…”, um outro deixa escapar. É um pensamento egoísta, mas ao menos verdadeiro.
Finalmente conseguem tirar meu corpo do carro. Me colocam numa espécie de saco para carregar cadáveres e me levam para o veículo do IML.
Chegando no tal instituto, um médico analisa rapidamente e sem muito interesse meu corpo, assina alguns papéis e fala monotonamente a uma enfermeira, apontando o local onde estou: “Tá liberado, pode levar”.
Passam-se algumas horas (não sei exatamente quantas, pois é difícil ter noção de tempo quando se está morto) e agora estou deitado numa mesa acolchoada. Alguém cantarolando me limpa, passa alguns produtos químicos em meu corpo – dentre eles formol, é claro –, maquia meu rosto (em vida eu tinha dito que nem morto faria isso, já que é coisa de “fresco”. Me enganei…) e, por fim, põe uma porção de algodão no meu nariz.
Chega a hora do velório. Há mais gente do que eu imaginei, mas não conheço nem a metade das pessoas. Nunca entendi o motivo de gostarem tanto de ver gente morta, será que pensam que vai ter algum lanche depois do enterro?
Minha mulher, segurando meu filho de 1 ano de idade, é a primeira a se aproximar do meu caixão. Sua expressão é triste e há lágrimas em seus olhos, mas o fato de “ouvir” seus pensamentos me faz não sentir tanta pena de sua situação:
“Irresponsável! Com mulher e filho pra sustentar, inventa de dirigir bêbado. Agora morreu e me deixou sem nenhum tostão… Eu devia ter largado ele quando o Tonho me chamou pra casar. Como eu fui burra! Espero que ele ainda me queira”.
E se afastou, chorando mais ainda.
O Tonho era meu melhor amigo, a gente se conhecia desde criança. Assim como eu, ele trabalhava como pedreiro, geralmente fazendo reforma em casas. Aos domingos, quase sempre a gente ia no bar do Pepeu tomar algumas “marvadas” e bater um papo.
Ele era um cara legal, pelo menos parecia ser. Foi ele, por exemplo, que me vendeu o Chevette em que acabei morrendo, a um preço bem abaixo do normal. Na época até suspeitei de que fosse roubado, mas nem me importei.
Agora eu daria qualquer coisa para esganar aquele maldito e a vagabunda da minha mulher. Parece que morrer não é tão bom quanto eu pensei. Saber o que as pessoas pensavam e escondiam de mim é realmente ruim…
O velório continua, com vários desconhecidos passando e me olhando:
“Vixi Maria… Como ele tá pálido!”.
“Será que se eu cutucar o ombro dele ele se mexe?”.
“Tira a mão daí menino! Não pega no morto, isso dá azar!”.
“Tadinho, deve ter doído… Deus tenha piedade da alma dele!”.
“Será que o lanche vai demorar?”
Algum tempo depois, finalmente fecham meu caixão e levam meu corpo para o cemitério. Lentamente me colocam na cova e começam a tapar. Em questão de minutos tudo acaba e sou deixado naquele lugar escuro, solitário, úmido e silencioso…
Quero sair daqui!!!
– Zé? Acorda Zé! – ouço a voz do Tonho me chamando.
– Que foi? – respondo.
– Ufa… Pensei que tu tinha desmaiado! Já tava preocupado por ter que te carregar até em casa.
– Quanto tempo eu fiquei apagado, Tonho? – eu pergunto.
– Acho que uns 10 ou 15 minutos. Eu tinha ido no banheiro e quando voltei tu tava aqui debruçado na mesa…
–Ah, tá… Então foi só um sonho… – eu falo, mais para mim mesmo.
– Que foi rapaz? Tá com uma cara estranha!
Eu olho para ele, pensativo, por alguns segundos. Então tomo a minha decisão: me levanto, inspiro bem forte e grito em direção ao balcão:
– Pepeu, traz mais uma dose da marvada que hoje eu vou beber até cair!


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